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Fever

2 Maio, 2009

Aquela era a primeira vez que o estranho entrava naquele bar. Não conhecia aquela região da cidade, mas chovia, seu pneu furara e, encharcado até os ossos, ele só queria se aquecer. O bar cheio cheirava a sobretudos e guarda-chuvas molhados, e havia apenas um lugar vazio, no balcão. À esquerda estava um homem usando um terno bem cortado e uma gravata de seda; tomava amargurado uma garrafa de cerveja, provavelmente retardando sua volta para casa, a bela esposa e os filhos perfeitos. À direita, estava uma figura muito mais digna de atenção.

Ele a viu primeiro de relance, mas depois não teve pudores em observá-la mais detidamente, seus saltos altos, a meia-calça que mal escondia as pernas reveladas pela saia, o decote modesta porém irresistivelmente preenchido, os lábios vermelhos ardentes ainda que não fartos, os olhos escuros que brilhavam convidativos, os curtos cabelos que formavam uma cortina negra sobre todas aquelas feições que ele agora poderia desenhar de olhos fechados.

“Dia ruim?” ela perguntou em uma voz rouca.

“Digamos que sim”, ele respondeu, pegando seu uísque e bebendo-o de uma só vez. Ele acenou para o barman e pediu outra dose. “Como está a eleição?”

Ela sorriu, e depois riu. Com um movimento, ela jogou os cabelos para trás e virou-se no banco alto, fazendo sua perna roçar de leve contra a calça molhada dele.

“Meu nome é Claire”, ela falou, comendo a azeitona de seu Martini já terminado.

“Auron”, ele disse, por sua vez, tragando um pouco mais do uísque, e arrependendo-se de ter pedido puro.

“Quer me pagar um drink, Auron?”

Ele chamou o atendente, que olhou Claire e, sem perguntar, começou a preparar um Martini seco em silêncio.

“Como está a votação?” Auron perguntou novamente, fazendo-a franzir o cenho.

“O mesmo desastre de sempre”, Claire comentou, entediada. Seus olhos se voltaram para a televisão, que transmitia a apuração dos votos mas era mantida em um som tão baixo que apenas aqueles próximo a ela poderiam escutar. O homem à esquerda de Auron pediu outra cerveja e soluçou. “Ei, Tom, aumente o som!”

O barman que os servira silenciosamente atendeu o pedido enquanto a tela mostrava uma repórter segurando um guarda-chuva vermelho desbotado.

“… e no nono distrito a apuração também foi encerrada”, a voz mecânica anunciou, fazendo com que todas as conversas no bar cessassem. “Assim, temos cinco distritos contra quatro, pela aprovação da nova lei de segurança.”

“Merda”, xingou o bebedor de cerveja antes de se levantar em um pulo e sair do bar, e ele não foi o único no bar a se manifestar de maneira tão enfática.

“Faltam só o terceiro e o quinto, agora”, Tom falou para Claire, que revirou os olhos e tomou um gole de seu Martini. “E você sabe como aquele povo é…”

Auron sentiu sua garganta secar, sem saber se por causa do uísque ou por nervosismo. Ele tinha entrado em um pólo de rejeição à nova lei, e agora precisava manter-se calmo para não trair sua posição de Senador. Cabisbaixo, como se a luz fraca do bar pudesse revelá-lo diante de todos, ele comeu alguns amendoins.

“Você está perdido?” Claire perguntou, virando-se ainda mais em seu banco até ficar de frente para Auron, o tronco ligeiramente reclinado para frente e um sorriso adorável nos lábios.

“Tive um problema com meu carro”, ele respondeu evasivamente.

“O telefone do Tom está mudo… Mas eu moro aqui perto. Gostaria de chamar um reboque?” ela sugeriu, delicadamente, enquanto pescava a azeitona. “Talvez avisar sua esposa que vai chegar tarde?”

O sorriso perdeu sua delicadeza e tornou-se arisco. Auron sabia que deveria ter cuidado, mas o perfume doce que ela exalava era intoxicante.

“Uma senhorita não deveria convidar estranhos.” ele falou, tentando fazer com que a repreensão ao convite servisse também como um freio aos seus desejos.

“O senhor não é um estranho”, ela murmurou, seu rosto agora muito perto do dele. Ninguém parecia prestar atenção aos dois agora. “Seu nome não é Auron e esse não é seu caminho costumeiro para casa.”

O estranho sentiu seus dedos suarem em torno do copo de uísque e nem mesmo a risada divertida de Claire serviu para descontraí-lo.

“Como você sabe…?”

Antes que ele terminasse a pergunta, Claire já tinha colocado seu Martini sobre o balcão e levantado. Quando ele percebeu, ela já colocava seu sobretudo e pegava seu guarda-chuva perto da porta do bar. Ele se levantou o mais rápido que pôde, jogando uma nota sobre o balcão e tentou alcançá-la. Ela já entrando na próxima porta quando ele saiu; não ficou exatamente surpreso quando encontrou a porta entreaberta.

Era um prédio antigo de quatro andares. Ele ouviu o som dos saltos dela batendo contra o chão de pastilhas de porcelana que tentavam fazer um mosaico, sem grande sucesso. Ele subiu as escadas até o terceiro andar, sem se incomodar com as lâmpadas piscando no hall, a tempo de vê-la entrando no apartamento de número 31. Ele estava sendo inconseqüente e irracional, arriscando-se daquela forma. Ele sabia disso, e ainda assim não conseguia refrear-se.

A sala pequena do apartamento estava mal-iluminada por um abajur. No momento em que ele entrou, o resto de sanidade que lhe restava gritou para que ele saísse dali, mas a porta atrás de si fechou com um estalo.

“Claire?” ele chamou, tentando manter-se calmo.

“Esse não é o meu nome…” ela respondeu atrás dele, quase sussurrando em seu ouvido. “…. Daniel.”

Daniel virou-se rápido o suficiente para segurá-la pelo pulso, contra a porta.

“Como você sabia?”

Apesar das sombras, ele pôde ver o rosto dela sorrindo. Não era um sorriso maníaco ou calculista, apenas divertido. E ele se odiou por isso.

“Tenho meus contatos…” ela falou, simplesmente. “Quão ruim foi ver seu pneu furado por um prego na noite de votação?”

Ele apertou ainda mais seus dedos em torno do pulso fino dela antes de soltá-la por completo.

“O que você quer?” ele demandou, dando um passo para trás. Droga, a sombra a deixava ainda mais bonita.

“Nada”, Claire ou quem quer que fosse respondeu, dando um passo para frente. “Ao menos não hoje.” Ela deu outro passo e seu corpo estava colado ao dele. “Vamos fingir por um momento que não temos votações, que você não é um Senador e que eu não posso muito bem ser uma lunática tentando matá-lo…” Ele permaneceu em silêncio enquanto ela corria seus dedos pela manga do sobretudo molhado dele até chegar ao seu ombro. “Você iria embora? Ou ficaria?”

Daniel considerou suas possibilidades. Podia dar as costas a tudo aquilo, chamar Rufo e ir para sua casa como se nada tivesse acontecido. Ou podia ficar e tentar descobrir quem era aquela estranha que, em menos de meia hora, fizera com que ele esquecesse seus problemas habituais para se focar apenas nela. Ele podia fingir que queria conhecê-la apenas para manter sua segurança, mas isso seria uma grande mentira. Ele só queria saber como seria o toque daqueles lábios, e por isso deu vazão a seus impulsos e a beijou nervosa, apressada e apaixonadamente.

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Outtakes – volume 2

28 Fevereiro, 2009

Um impulso tirou-o de sua concentração, impulso este que o fez ir até a janela de seu pequeno escritório e olhar os jardins da casa de seu pai. O verde pálido começava a ganhar força e flores começavam a ganhar cor, mas não fora uma súbita vontade no espetáculo erval que o atraíra à janela. Ele ficou parado como que esperando algo acontecer que justificasse sua interrupção. Assim, foi com interesse que viu uma amazona entrar correndo pelos portões, montando um cavalo negro como carvão, à exceção de um pequeno losango branco na testa, entre os olhos. Ela não cavalgava como seria adequado a uma dama, mas sim com uma perna de cada lado do dorso do animal. Ao chegar às portas da mansão, entregou as rédeas ao primeiro serviçal que encontrou; disse-lhe algo, vigorosa o suficiente para fazer o homem acenar com a cabeça da mesma maneira.

Ele deixou o escritório e parou no balcão formado pelo corredor do segundo andar que cercava o salão de entrada da casa. Ajeitou os óculos no rosto, e viu a mulher adentrar o salão com passos vigorosos dado por botas de couro fino e branco que, por não serem apropriadas para montaria, tinham sido severamente danificadas. A saia do vestido também estava bastante marcada e, entre a capa de viagem de cetim verde-escuro e o trançado de linhas da mesma cor que prendia seus cabelos, a única coisa que demonstrava que ela estivera montada poucos minutos antes eram as luvas grossas de couro marrom, que foram retiradas assim que as portas se fecharam atrás dela.

Seu pai tomava vinho e fumava charutos com alguns comerciantes na sala contínua, e foi chamado até o salão. Ele encontrou a mulher e ambos falaram algo que o rapaz, no andar de cima, não pôde ouvir, mas parecia haver urgência nas palavras dela. Ele disse algo a que ela respondeu virando-lhe as costas. Com as mãos, segurou as saias e subiu as escadas mais próximas dela e dele com pressa. Seus passos ecoaram no salão vazio, mas não suas palavras, que de alguma forma foram dirigidas diretamente a ele.

“Seu avô está vivo”, ela falou quando chegou ao segundo andar. O homem mais velho alcançou-a, parecendo um pouco irritado.

“Nós já sofremos o suficiente”, ele disse, segurando-a pelo pulso e puxando-a. A dama fez um movimento vigoroso com o braço e se soltou sem dificuldades.

“Por favor…”

Ainda que a escuridão do apocalipse tivesse caído sobre a casa ele teria reconhecido sua voz. Ela deu um passo à frente, passando na frente de uma janela, e seus olhos castanhos luziram. Não eram olhos altivos ou orgulhosos, mas suplicantes.

“O que você está fazendo aqui?” ele perguntou à moça.

“Encontramos seu avô”, ela explicou, e estancou a aproximação a alguns passos de distância do rapaz. “Ele chegou perto o suficiente da casa de meu pai no campo para o socorrermos.”

Um momento de silêncio pairou entre ambos, ainda separados. Ela torcia nervosamente as luvas de couro, mas não ousava dizer mais nada. Ele deu dois passos à frente.

“Como?”

“Não sei”, ela respondeu, humildemente. “Chamamos o médico, mas a febre apenas aumentou, e a hemorragia não parava. Ele passou a noite chamando por você, por vocês”, ela falou, também se dirigindo ao mais velho..

“Por que eu deveria ir?” o rapaz perguntou, nervoso. Suas mãos suavam frio à simples menção de seu avô.

“Porque isso não é sobre mim”, ela respondeu, a respiração profunda e agitada denunciada pelo balanço de seu peito. “É sobre seu avô.”

Ele acenou com a cabeça, ainda um pouco dormente. A raiva de vê-la tendo a coragem de pisar em sua casa foi abrandada por algo como felicidade melancólica por poder ver o avô mais uma vez.

Quando chegaram às portas do salão, um empregado já os esperava com a capa de viagem do filho de seu senhor, e luvas de equitação tão grossas quanto às da moça. Também seu cavalo estava selado e com o manto de sua casa cobrindo seus flancos. Outro empregado entregou-lhes as rédeas. O rapaz montou e viu a moça montar; de uma bolsa presa à sela, ela tirou uma espada embainhada e lhe entregou.

“Você pode precisar”, ela disse, batendo com os calcanhares no cavalo.

“Por que você veio?”

Ela voltou o olhar para ele, e uma avalanche de memórias e sentimentos que acordaram num piscar de olhos o atingiu por dentro.

“Porque tinha de ser eu.”

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borboleta

27 Novembro, 2008

Estou deitada em um lençol sobre uma das gramas mais verdes que já vi. Às vezes venta, mas só um pouco; o suficiente para espantar o calor do sol que brilha no céu azul e sem nuvens. Os fones sussurram uma música qualquer nos meus ouvidos: talvez Viva la vida, talvez a valsa do Quebra-Nozes. Tudo que vejo é vermelho, estou de olhos fechados, tentando perceber o cheiro desse final de tarde interminável.

Quando abro os olhos, sinto-os atraídos para a ponta do meu nariz. Um impulso me faz querer espantar o que está ali, mas seguro a minha mão e tento focar o pequeno estranho. A pequena. É uma borboleta azul, não muito maior do que uma borracha escolar, que abre e fecha suas asas pousada ali. Com medo de assustar minha diminuta companhia, fecho os olhos novamente e tento manter-me o mais parada possível.

Ouço um latido atrás da música, seguido de risadas. Logo imagino um garoto, uma criança de não mais que sete ou oito anos, brincando com um grande cachorro de pêlos dourados que brilham sob o sol. Toda vez que o menino pega a bola de seu cão, este o responde com uma lambida carinhosa na bochecha. A mãe do garoto não está muito longe, penso eu, mas não se envolve na brincadeira porque está ocupada observando sua caçula, uma bebezinha de cinco meses. Rapidamente todos os personagens têm nome: Tiago é o menino, o cachorro se chama Bolt, Clara é sua mãe, Bianca é o nome da menina, e Cláudio é seu pai, que está preso em algum cruzamento congestionado no trânsito caótico desta cidade infernal.

Volto rapidamente ao meu recanto. Ainda posso sentir uma comichão na ponta de meu nariz. Respiro fundo, porém muito lentamente, para evitar movimentos bruscos. A música de fundo mudou, os sons que me cercam também. Escuto agora um casal conversando. Estão sentados confortavelmente em um banco, sem dúvida, ainda que as ripas de madeira não ofereçam muito conforto. O braço dele envolve os ombros dela e… Não. Ela está deitada no colo dele. Trocam olhares profundos e silenciosos, e só esporadicamente pronunciam alguma palavra. Ela está ansiosa, preocupada com uma mudança iminente. Ele sorri, toca o rosto da companheira carinhosamente, e reafirma a promessa dita e não-dita uma centena de vezes. O nome deles não importa. O que importa é que aquele silêncio é mais significativo do que muitas palavras.

Abro os olhos novamente e lá está a borboleta. Ela parece me olhar profundamente, ou o mais profundamente que uma borboleta pode olhar algo. Penso, então, que talvez ela possa me ver melhor do que muitos. Alguns me veriam e diriam: “que menina boba, de olhos fechados quando há tanta coisa bonita para se ver…” Minha amiga, porém, deve pensar, em sua cabeça de borboleta: “que interessante, vê tanto mesmo de olhos fechados…”

A simples idéia de uma borboleta filosófica pensando me faz rir e, inconseqüentemente, afasto minha companheira. E, creio, esta não deve ser a primeira borboleta que afasto assim.

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Outtakes – volume 1.

7 Agosto, 2008

A mansão está vazia. Bom, ela nunca está vazia de verdade, mas a maior parte dos meus homens está ou nos alojamentos ou em suas casas. Os que ainda estão acordados têm como papel ficarem quietos como uma sombra. São exatamente isto que são: sombras escondidas em outras sombras, vigiando os corredores, as entradas, o circuito de TV. É melhor assim. São onze e cinqüenta e sete da noite, falta pouco para esse dia terminar e mais um começar. Meu aniversário. É difícil acreditar que, quando os dois ponteiros de meu relógio apontarem para o XII, serão vinte anos desde o dia em que nasci. É difícil porque parece muito mais.

Agora não é o momento para pensar no passado. Meu corpo pede banho e cama, mas meu estômago é mais implacável pedindo comida. Vou para a cozinha pacientemente, vendo os retratos daqueles que me antecederam no comando da Organização. Todos homens, todos donos de suas próprias vidas quando assumiram o posto mais alto que eu passei a ocupar nos meus passados e não muito idílicos doze anos. Quase oito anos se passaram…

Meu plano é fazer um sanduíche com o que encontrar na geladeira e levá-lo para meu quarto junto de uma garrafa de água. Perto da cozinha, sinto algo atrás de mim. Uma sombra escondida em outra sombra, uma sombra de olhos que brilham no escuro. Eu rio para que ele saiba que percebi sua presença, mas continuo meu caminho.

Antes que eu possa cruzar a cozinha para abrir a geladeira, a sombra está recostada contra a porta de metal, os braços cruzados displicentemente, a cabeça coberta por um grande chapéu.

“Pensei que fosse encontrá-la aqui”, ele sussurra e é como se gritasse em meus ouvidos. Cada célula do meu corpo está desperta agora e consciente da presença dele. “Imaginei que estivesse com fome, minha senhora.”

“E estou”, respondo, recobrando o controle sobre minhas pernas e indo até a geladeira. Forço o puxador para que ele saiba que quero abri-la, mas ele apenas levanta uma das mãos enluvadas para o meu pulso.

“Olhe”, ele fala e eu sinto seus olhos apontarem para meu braço esquerdo mesmo sem vê-los. “Já passa de meia-noite.”

“Feliz aniversário para mim”, eu retruco. Não estou no clima de comemorações; o último aniversário passado com felicidade foi meu décimo segundo, o último com meu pai.

“Sua primeira refeição com vinte anos não deveria ser um sanduíche”, ele comenta e me afasta da geladeira com um movimento suave porém decidido. “Venha comigo, minha senhora.”

Ele se torna uma sombra novamente, e eu também. Uma sombra da chefe de conselho, uma sombra da combatente feroz, uma sombra de mim mesma. Antes que eu me dê por mim, estamos no meu quarto. As portas da sacada estão abertas, assim como as cortinas, e a luz prateada da lua enche boa parte do cômodo. Velas, e não lâmpadas elétricas, estão acesas para diminuir ainda mais a escuridão, embora não seja realmente necessário.

Perto da sacada, atingida em cheio pelo luar, está uma mesa posta com duas cadeiras. Ele puxa uma para mim e, irresistivelmente, sento-me. Há um belo salmão defumado acompanhado de batatas douradas. Mesmo que não estivesse com fome, não recusaria apreciar a fonte daquele aroma surpreendentemente familiar.

“Feliz aniversário, minha senhora”, ele diz, servindo-me um pouco de vinho branco, ainda de pé. Posso sentir seus olhos me queimando.

“Obrigada”. O agradecimento não é o que gostaria de falar. O segundo mais longo de minha vida se passa em silêncio, até que encontro a coragem que me faltava. “Por favor, sente-se.”

Ele sorri, um sorriso torto e perfeitamente satisfeito por obter o que queria. A cadeira até então vazia é puxada para perto de mim e como por alguns minutos em silêncio, consciente até demais de cada mínimo movimento. Ele parece uma estátua esculpida em mármore, a pele branca brilhando prateada sob a lua.

“Você pode tirar seu chapéu”, comento, tentando soar descontraída. O garfo quase escapa de minha mão quando ele faz o que sugiro. Os cabelos negros e selvagens estão curtos, como eu tanto gosto, e algumas mechas caem sobre seus olhos vermelhos brilhantes. Meu coração pula uma batida e eu tento me convencer de que é apenas o efeito do vinho. Quando termino o jantar, ele me oferece uma deliciosa torta de chocolate e frutas vermelhas.

“Espero que tenha sido de seu agrado”, ele fala quando como o último pedaço do doce. Só então percebo o quão próximo estamos e cada sílaba que sai de seus lábios me atinge como uma agulha fina e ardente.

Eu posso ser importante, temida e respeitada por meus subordinados, mas perto dele eu volto a ser a menina de doze anos que foi salva por ele, o mesmo ardor juvenil. Não há um traço em seu rosto que tenha mudado; exceto quando o liberto para exercer seu verdadeiro talento num campo de combate, vejo exatamente os mesmos olhos, o mesmo nariz fino, os mesmos lábios retorcidos em um sorriso encantadoramente torto…

“Estava ótimo”, é tudo que consigo responder. Tenho de me controlar para não esticar o braço e passar meus dedos pelos seus cabelos escuros. Ele não. Os dedos cobertos pelo pano branco da luva puxam uma mecha dos meus cabelos para trás da minha orelha, roçando de leve contra minha bochecha.

“Se posso dizer”, ele murmura, a voz rouca soando como veludo, “a senhora se tornou uma bela mulher.” Sinto um calafrio e não consigo esconder. Ele sorri mais francamente e me levanta da cadeira.

“Estamos juntos há quase oito anos”, falo, debilmente. Ele está tão perto que, se o sangue corresse em seu corpo normalmente, eu poderia sentir seu calor.

“Oito anos não são nada quando se tem a eternidade.” Os olhos vermelhos brilham para mim e me sinto desajeitada com aqueles óculos redondos grandes na frente dos meus. Meu braço é mais rápido do que meu cérebro e meus dedos tocam a pele fria de seu rosto. O sorriso vira uma risada contida, rouca como a voz. Ele beija delicadamente minha bochecha, quase descendo para o meu pescoço, fecho meus olhos e sua voz soa novamente colada no meu ouvido. “E eu tenho todo o tempo do mundo.”

Estou sozinha novamente quando abro os olhos. Uma brisa leve entra no meu quarto e apaga as poucas velas. É loucura, sei disso tanto quanto ele. Mas ele gosta de loucuras, enquanto eu devo resistir a elas. É o meu trabalho, é o trabalho da minha família desde tempos remotos. E ainda assim, eu não consigo não sorrir quando fecho as portas da sacada, me enfio embaixo dos cobertores e vejo um par de olhos brilhantes sorrindo das sombras para mim.

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Summer wine

30 Março, 2008

Sally Jean cantava debruçada sobre o piano como se fizesse um favor ao mundo por simplesmente existir. Abanava-se preguiçosa, fazendo mais charme do que vento, e dava pouca importância para quem a ouvia ou deixava de ouvir. Na verdade, só o homem martelando as teclas do piano impiedosamente, Martin, podia ouvi-la. Mesmo assim, Billy teria dito com toda sua convicção que escutava perfeitamente os sons que escapavam pelos lábios escarlate.

Sally Jean viu o pistoleiro entrar no salão, e por isso mesmo faz questão de ignorá-lo. Martin acabou a música sofregamente e ela pôde se afastar do piano e ir até o bar, para uma dose ou duas. Ela não precisou se virar para saber que Billy estava a cinco passos de distância, quatro agora, logo dois, e então…

- Quero minhas esporas de volta. – ele falou, tocando a borda do chapéu para cumprimentar o dono do salão. Tinha um olho roxo e um corte na sobrancelha.

- Dia ruim, Billy? – ela disse, sorrindo não para ele, mas para Johnny, o assistente de xerife que passava atrás do pistoleiro.

- Mais para semana. – ele respondeu e, segurando-a pelo pulso, repetiu. – Quero minhas esporas de volta.

Sally Jean fechou o sorriso, enfadada. Martin voltou a bater no piano, mas nenhum dos dois prestou atenção nisso.

- Elas estão lá em cima…

As palavras foram acompanhadas de um gesto que uma das portas no andar de cima. O que estava atrás dela, Billy conhecia perfeitamente. Se fechasse os olhos, poderia até mesmo sentir o cheiro do quarto, porque era o cheiro dela. Um dos poucos cheiros agradáveis que ele sentira em toda sua vida.

- Pegue-as, então. – ele mandou.

Sally Jean riu.

- Um rapaz tão bonzinho falando assim… O que os ladrões de gado vão achar disso?

Mesmo assim, ela girou, fazendo a barra um pouco puída do vestido vermelho roçar contra a calça rasgada de Billy. Alguns cachos, que caíam do penteado, voaram contra seu nariz. Ele aceitou a provocação e subiu atrás dela, ajeitando o chapéu. Primeira, segunda, terceira porta à esquerda. Sally Jean abriu e convidou-o a entrar simplesmente por não o impedir de entrar, fechando a porta em seguida.

Ela abriu a primeira gaveta da penteadeira e tirou um saquinho preto cujo conteúdo tilintou como se fossem moedas. Billy avançou em dois passos largos, mas foi parado pelo olhar penetrante de carvão da cantora.

- Por favor. – ele falou.

- Mais.

- Sally, devolva minhas esporas, por favor.

Contrariada, ela entregou o saquinho, e de dentro dele Billy tirou duas esporas prateadas que brilhavam sob a luz das velas.

- Você tem outras… – ela falou, apontando para os pés do pistoleiro com o queixo. – Por que essas?

- Não interessa. – Billy respondeu ríspido, e no entanto tirou o coldre e pendurou-o contra a cadeira da penteadeira. – Johnny está dizendo por aí que você está recebendo-o quando Martin não vê.

Ela riu novamente.

- Johnny diz mais do que deve, e você sabe disso. – Ela girou a chave na maçaneta e parou atrás do rapaz. – Bobo…

Billy virou-se e apertou o corpo de Sally Jean contra o seu, beijando-a como ela gostava.

No calor do momento e na umidade da cidadezinha sem importância, Billy e Sally Jean fizeram o que sabiam fazer de melhor. E, no dia seguinte, Billy acordaria novamente em uma cama macia, sozinho, com um bilhete no criado-mudo:

“Sempre bem-vindo, Billy. As esporas ficam para outro dia.”