Posts com Tag ‘crônica’

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27 janeiro, 2010

Não escrevemos para o futuro: eis o grande efeito da revolução tecnológica dos meios de comunicação.

Trocamos mensagens corridas, por e-mail, msn ou mesmo celular, e perdemos cada vez mais a capacidade de escrever cartas. O gênero epistolar, antes tão útil para aqueles que dele se utilizavam para saber notícias, torna-se uma raridade. Rebemos extratos, boletos de pagamento, promoções… Mas quando de nós recebem cartas? E quantos de nós as escrevem à mão, deixando o grafite ou a tinta riscar o papel?

Um professor disse uma vez, falando dessa nossa vida cada mais mais on line, que o Twitter nos faria retroceder ao uga-uga. Exageros à parte, devo dar-lhe razão. Porque eu mesma me vejo a cada dia mais como parte desse mundo. Basta ver a freqüência das atualizações no meu próprio Twitter.

Escrevo essas palavras embalada por uma carta. Uma carta de 740 anos, aproximadamente. Nela, um pai zeloso tenta transmitir ensinamentos a seu filho mais velho. Certamente não é um pai qualquer, assim como não é qualquer filho. Estão ambos inscritos na genealogia dinástica de um dos reinos mais imponentes que a Europa viu.

Estou sentada na mesa da minha sala com um pequeno livro, cujo organizador levou anos tentando reconstituir essa carta. Trinta e três pequenos parágrafos que sobreviveram a incêndios e revoluções, e que hoje leio na tentativa de saber mais sobre seu autor, sobre sua época, sobre seu mundo.

E, inconseqüentemente, me pergunto: o que lerão os historiadores daqui a 740 anos?

O que deixamos para o futuro?

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Lá e de volta outra vez

18 janeiro, 2010

Acho que a nostalgia é inevitável. E fundamental para o crescimento do ser humano. Sem a nostalgia, sem sentirmos falta de algo que se passou, qual seria a grande vitória em seguir em frente?

Ao longo do tempo, desenvolvi uma teoria – que sem dúvida ainda precisa de desenvolvimento e revisão, mas ainda assim é uma teoria e é minha. E é a seguinte:

A nostalgia é uma decorrência do fato de que o passado é conhecido e, como tal, seguro. O presente é repleto de dúvidas, o futuro é um conjunto de possibilidades. Mas o passado… Trazemos o passado em nós mesmos e, por isso, ele é reconfortante. O passado é o lugar do certo, do imutável, do constante.

O problema é que não posso fingir que quatro anos de faculdade não me influenciaram, e aí vem o pulo do gato: o passado não é imutável. Cada vez que você o visita, você o recria, redesenha. É assim que o passado, progressivamente, vai ficando mais alegre, mais colorido e mais vivo. Porque você tira a poeira, apaga os erros, reforça os acertos.

Faz muito tempo, eu decidi que viveria no presente. Não sou tão boa em recriar meu passado, que parecia ficar cada vez mais soturno conforme eu o visitava. Decidi que era melhor deixá-lo como tal: para trás. E aprendi a ver as pequenas belezas do hoje, a poesia do agora.

Paradoxalmente, isso me fez perceber que o passado, o meu passado, não é o lugar obscuro que coloquei. Claro, meus erros estão lá, mais gritantes agora do que nunca. Mas também vejo meus acertos. Depois de viver no hoje, consigo olhar o ontem com muito mais confiança em mim mesma. Confiança no que faz o que sou hoje. Fiz as pazes com meu passado.

Mas, ainda assim, continuo preferindo a nostalgia do não-vivido.

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(um pouco) de melancolia numa (nada) chuvosa noite

19 dezembro, 2009

Há quatro anos, eu saía do colégio. Foi uma experiência marcante, sem dúvida alguma. A faculdade parecia algo completamente estranho e incontrolável, um lugar que abria sua boca para engolir todos nós, sem piedade.

Estranho. Lembro disso na mesma época em que minha companheira mais fiel ao longo de toda a graduação está se formando. Pensei que fosse passar pela mesma sensação de quando me graduei no colégio – de estar perdendo algo, uma parte de mim. Mas não é assim.

Em parte, porque a faculdade é bem diferente do colégio. Em parte, porque sabia, quando saí do colégio, que perderia contato com muitas daquelas pessoas, mesmo com aquelas de quem gostava. Em parte, porque só aprendi no final do colégio o que eu realmente queria ser. E, quando entrei para a faculdade, era uma Juliana diferente da que tinha começado o Ensino Médio.

Cresci. E posso ver isso além das fotos, que me mostram agora um rosto (um pouco) menos bochechudo. Posso sentir isso. Mesmo nos momentos mais intimidantes. Mesmo nas horas mais confusas.

Estou crescendo. Sinto isso a cada dia que passa, a cada dia que acordo sabendo que sei menos, a cada passo que dou.

Continuo a mesma. Fazendo várias das mesmas besteiras de antigamente. Inovando, fazendo besteiras cada vez mais inventivas. Fazendo malabarismo verbal para dizer o que quero sem falar o que não querem ouvir.

Algumas das certezas daquela época continuam. Outras (muitas) ruíram pelo caminho. O que não é nem um pouco ruim.

Na verdade, acho que não é nada ruim mesmo.

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