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Summer wine

30 março, 2008

Sally Jean cantava debruçada sobre o piano como se fizesse um favor ao mundo por simplesmente existir. Abanava-se preguiçosa, fazendo mais charme do que vento, e dava pouca importância para quem a ouvia ou deixava de ouvir. Na verdade, só o homem martelando as teclas do piano impiedosamente, Martin, podia ouvi-la. Mesmo assim, Billy teria dito com toda sua convicção que escutava perfeitamente os sons que escapavam pelos lábios escarlate.

Sally Jean viu o pistoleiro entrar no salão, e por isso mesmo faz questão de ignorá-lo. Martin acabou a música sofregamente e ela pôde se afastar do piano e ir até o bar, para uma dose ou duas. Ela não precisou se virar para saber que Billy estava a cinco passos de distância, quatro agora, logo dois, e então…

– Quero minhas esporas de volta. – ele falou, tocando a borda do chapéu para cumprimentar o dono do salão. Tinha um olho roxo e um corte na sobrancelha.

– Dia ruim, Billy? – ela disse, sorrindo não para ele, mas para Johnny, o assistente de xerife que passava atrás do pistoleiro.

– Mais para semana. – ele respondeu e, segurando-a pelo pulso, repetiu. – Quero minhas esporas de volta.

Sally Jean fechou o sorriso, enfadada. Martin voltou a bater no piano, mas nenhum dos dois prestou atenção nisso.

– Elas estão lá em cima…

As palavras foram acompanhadas de um gesto que uma das portas no andar de cima. O que estava atrás dela, Billy conhecia perfeitamente. Se fechasse os olhos, poderia até mesmo sentir o cheiro do quarto, porque era o cheiro dela. Um dos poucos cheiros agradáveis que ele sentira em toda sua vida.

– Pegue-as, então. – ele mandou.

Sally Jean riu.

– Um rapaz tão bonzinho falando assim… O que os ladrões de gado vão achar disso?

Mesmo assim, ela girou, fazendo a barra um pouco puída do vestido vermelho roçar contra a calça rasgada de Billy. Alguns cachos, que caíam do penteado, voaram contra seu nariz. Ele aceitou a provocação e subiu atrás dela, ajeitando o chapéu. Primeira, segunda, terceira porta à esquerda. Sally Jean abriu e convidou-o a entrar simplesmente por não o impedir de entrar, fechando a porta em seguida.

Ela abriu a primeira gaveta da penteadeira e tirou um saquinho preto cujo conteúdo tilintou como se fossem moedas. Billy avançou em dois passos largos, mas foi parado pelo olhar penetrante de carvão da cantora.

– Por favor. – ele falou.

– Mais.

– Sally, devolva minhas esporas, por favor.

Contrariada, ela entregou o saquinho, e de dentro dele Billy tirou duas esporas prateadas que brilhavam sob a luz das velas.

– Você tem outras… – ela falou, apontando para os pés do pistoleiro com o queixo. – Por que essas?

– Não interessa. – Billy respondeu ríspido, e no entanto tirou o coldre e pendurou-o contra a cadeira da penteadeira. – Johnny está dizendo por aí que você está recebendo-o quando Martin não vê.

Ela riu novamente.

– Johnny diz mais do que deve, e você sabe disso. – Ela girou a chave na maçaneta e parou atrás do rapaz. – Bobo…

Billy virou-se e apertou o corpo de Sally Jean contra o seu, beijando-a como ela gostava.

No calor do momento e na umidade da cidadezinha sem importância, Billy e Sally Jean fizeram o que sabiam fazer de melhor. E, no dia seguinte, Billy acordaria novamente em uma cama macia, sozinho, com um bilhete no criado-mudo:

“Sempre bem-vindo, Billy. As esporas ficam para outro dia.”

4 comentários

  1. achei lindo.

    – como já mencionei, Julie é uma de minhas autoras favoritas.

    Adorei o texto! =***


  2. adorei🙂
    o título combinou perfeitamente com o conto e eu gostei da temática justamente por fugir do usual

    love it dear🙂


  3. Nice Work, Red!

    You’re improving fast!🙂


  4. Menina talentosa!!!🙂



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