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Outtakes – volume 1.

7 agosto, 2008

A mansão está vazia. Bom, ela nunca está vazia de verdade, mas a maior parte dos meus homens está ou nos alojamentos ou em suas casas. Os que ainda estão acordados têm como papel ficarem quietos como uma sombra. São exatamente isto que são: sombras escondidas em outras sombras, vigiando os corredores, as entradas, o circuito de TV. É melhor assim. São onze e cinqüenta e sete da noite, falta pouco para esse dia terminar e mais um começar. Meu aniversário. É difícil acreditar que, quando os dois ponteiros de meu relógio apontarem para o XII, serão vinte anos desde o dia em que nasci. É difícil porque parece muito mais.

Agora não é o momento para pensar no passado. Meu corpo pede banho e cama, mas meu estômago é mais implacável pedindo comida. Vou para a cozinha pacientemente, vendo os retratos daqueles que me antecederam no comando da Organização. Todos homens, todos donos de suas próprias vidas quando assumiram o posto mais alto que eu passei a ocupar nos meus passados e não muito idílicos doze anos. Quase oito anos se passaram…

Meu plano é fazer um sanduíche com o que encontrar na geladeira e levá-lo para meu quarto junto de uma garrafa de água. Perto da cozinha, sinto algo atrás de mim. Uma sombra escondida em outra sombra, uma sombra de olhos que brilham no escuro. Eu rio para que ele saiba que percebi sua presença, mas continuo meu caminho.

Antes que eu possa cruzar a cozinha para abrir a geladeira, a sombra está recostada contra a porta de metal, os braços cruzados displicentemente, a cabeça coberta por um grande chapéu.

“Pensei que fosse encontrá-la aqui”, ele sussurra e é como se gritasse em meus ouvidos. Cada célula do meu corpo está desperta agora e consciente da presença dele. “Imaginei que estivesse com fome, minha senhora.”

“E estou”, respondo, recobrando o controle sobre minhas pernas e indo até a geladeira. Forço o puxador para que ele saiba que quero abri-la, mas ele apenas levanta uma das mãos enluvadas para o meu pulso.

“Olhe”, ele fala e eu sinto seus olhos apontarem para meu braço esquerdo mesmo sem vê-los. “Já passa de meia-noite.”

“Feliz aniversário para mim”, eu retruco. Não estou no clima de comemorações; o último aniversário passado com felicidade foi meu décimo segundo, o último com meu pai.

“Sua primeira refeição com vinte anos não deveria ser um sanduíche”, ele comenta e me afasta da geladeira com um movimento suave porém decidido. “Venha comigo, minha senhora.”

Ele se torna uma sombra novamente, e eu também. Uma sombra da chefe de conselho, uma sombra da combatente feroz, uma sombra de mim mesma. Antes que eu me dê por mim, estamos no meu quarto. As portas da sacada estão abertas, assim como as cortinas, e a luz prateada da lua enche boa parte do cômodo. Velas, e não lâmpadas elétricas, estão acesas para diminuir ainda mais a escuridão, embora não seja realmente necessário.

Perto da sacada, atingida em cheio pelo luar, está uma mesa posta com duas cadeiras. Ele puxa uma para mim e, irresistivelmente, sento-me. Há um belo salmão defumado acompanhado de batatas douradas. Mesmo que não estivesse com fome, não recusaria apreciar a fonte daquele aroma surpreendentemente familiar.

“Feliz aniversário, minha senhora”, ele diz, servindo-me um pouco de vinho branco, ainda de pé. Posso sentir seus olhos me queimando.

“Obrigada”. O agradecimento não é o que gostaria de falar. O segundo mais longo de minha vida se passa em silêncio, até que encontro a coragem que me faltava. “Por favor, sente-se.”

Ele sorri, um sorriso torto e perfeitamente satisfeito por obter o que queria. A cadeira até então vazia é puxada para perto de mim e como por alguns minutos em silêncio, consciente até demais de cada mínimo movimento. Ele parece uma estátua esculpida em mármore, a pele branca brilhando prateada sob a lua.

“Você pode tirar seu chapéu”, comento, tentando soar descontraída. O garfo quase escapa de minha mão quando ele faz o que sugiro. Os cabelos negros e selvagens estão curtos, como eu tanto gosto, e algumas mechas caem sobre seus olhos vermelhos brilhantes. Meu coração pula uma batida e eu tento me convencer de que é apenas o efeito do vinho. Quando termino o jantar, ele me oferece uma deliciosa torta de chocolate e frutas vermelhas.

“Espero que tenha sido de seu agrado”, ele fala quando como o último pedaço do doce. Só então percebo o quão próximo estamos e cada sílaba que sai de seus lábios me atinge como uma agulha fina e ardente.

Eu posso ser importante, temida e respeitada por meus subordinados, mas perto dele eu volto a ser a menina de doze anos que foi salva por ele, o mesmo ardor juvenil. Não há um traço em seu rosto que tenha mudado; exceto quando o liberto para exercer seu verdadeiro talento num campo de combate, vejo exatamente os mesmos olhos, o mesmo nariz fino, os mesmos lábios retorcidos em um sorriso encantadoramente torto…

“Estava ótimo”, é tudo que consigo responder. Tenho de me controlar para não esticar o braço e passar meus dedos pelos seus cabelos escuros. Ele não. Os dedos cobertos pelo pano branco da luva puxam uma mecha dos meus cabelos para trás da minha orelha, roçando de leve contra minha bochecha.

“Se posso dizer”, ele murmura, a voz rouca soando como veludo, “a senhora se tornou uma bela mulher.” Sinto um calafrio e não consigo esconder. Ele sorri mais francamente e me levanta da cadeira.

“Estamos juntos há quase oito anos”, falo, debilmente. Ele está tão perto que, se o sangue corresse em seu corpo normalmente, eu poderia sentir seu calor.

“Oito anos não são nada quando se tem a eternidade.” Os olhos vermelhos brilham para mim e me sinto desajeitada com aqueles óculos redondos grandes na frente dos meus. Meu braço é mais rápido do que meu cérebro e meus dedos tocam a pele fria de seu rosto. O sorriso vira uma risada contida, rouca como a voz. Ele beija delicadamente minha bochecha, quase descendo para o meu pescoço, fecho meus olhos e sua voz soa novamente colada no meu ouvido. “E eu tenho todo o tempo do mundo.”

Estou sozinha novamente quando abro os olhos. Uma brisa leve entra no meu quarto e apaga as poucas velas. É loucura, sei disso tanto quanto ele. Mas ele gosta de loucuras, enquanto eu devo resistir a elas. É o meu trabalho, é o trabalho da minha família desde tempos remotos. E ainda assim, eu não consigo não sorrir quando fecho as portas da sacada, me enfio embaixo dos cobertores e vejo um par de olhos brilhantes sorrindo das sombras para mim.

3 comentários

  1. Po mermão, maneiro bagaraio!

    Sério, agora. Muito bem escrito. Quase acreditei, juro.

    Senti uma leve inspiração stepheniemeyeriana.😛


  2. achei assim, ótimo. vocês andam meio viciadas em vampiros, não?

    de qualquer forma, curti bastante e quero mais – ouviu? xP

    beijos =*


  3. Vampires are taking over and I like it😀

    Adorei Ju-girl e você vai continuar né? diz que vai, vaaaaai
    Mas honestly, você escreve bem melhor que uma certa moça mormon.

    beijos ;*



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