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Lembranças de uma vida escolar

7 setembro, 2008

(nomes reais substituídos por fictícios pelo bem da literatura)

Existia alguma coisa de muito assustadora em começar o terceiro ano do Ensino Médio. Pelo menos era isso que todo mundo comentava naquela primeira semana de aula. Nossa turma – a única do colégio arrumada de acordo com um ranking de notas – era um grupo grande, de uns 45 alunos, e eu já tinha estudado com cerca de 10 deles. Vários outros eu conhecia de outras situações. A maioria me conhecia. Não sei até que ponto posso falar isso com segurança, mas a maior parte dos alunos do terceiro ano me conhecia. Eu era a nerd, a queridinha dos professores e – em parte por isso, em parte pelo meu comportamento não muito sociável – muita gente sabia quem eu era e não gostava de mim. Isso não era exatamente um problema, só mais um dado da minha vida escolar.

Voltando à turma… Logo nos primeiros dias de aula, um grupo um tanto quanto inusitado se formou e, antes que me desse conta, eu tinha passado da segunda fila de carteiras para a sexta – algo inédito até então. À minha volta estavam meninos com quem eu estudara na sexta série, meninas que eu conhecera na sétima e uma amiga muito peculiar que me apareceu no primeiro ano do nada. Logo nos conectamos. Mais inédito do que eu me sentar tão atrás na sala (que deveria ter umas oito carteiras de profundidade) era estar, também de maneira alegórica, no temido, por vezes odiado, muitas vezes aproveitado “grupo do fundão”. Por algum motivo – talvez o fato de estarmos na “turma 1”, talvez porque nunca fazíamos nada de pessoal – nossos professores nos encaravam totalmente na esportiva.

Nosso professor de Biologia 1 sempre me mandava sentar direito; o professor de Física 1 deu um belo “mata leão” no Gustavo; o Miguel – o aluno número 1 mesmo quando não tirava as notas mais altas – uma vez saiu de sala por causa de um mal-entendido que, depois de esclarecido, fez nossa professora de Geografia 2 pedir desculpas a ele. Nosso professor de História 2 – que sempre se empolgava quando eu dizia que iria fazer História porque achava que chegaria o momento em que eu desistiria de Medievo e me apaixonaria por Américas (momento esse que ainda não chegou) – era constantemente comparado com um personagem da “Malhação”; o professor de História 1 se divertia contando “fofoquinhas”. O Lucas era o poeta marxista, quem veemente encorajávamos a ler suas criações na aula de Literatura – tudo para atrasar um pouco mais aquela tortura insuportável sobre Modernismo. O professor de Língua Portuguesa tentou interromper alguns joguinhos de “continue a história” mudando os meninos de lugar – e falhou miseravelmente porque sempre encontrávamos um jeito de continuar passando os papeizinhos.

Tivemos um professor substituto de Química 1, de quem desgostamos no primeiro minuto para amarmos em todos os outros. “Menino das Casas Bahias” era o apelido dele, e juro que era totalmente apropriado. No último dia de aula dele na nossa turma, fizemos uma festa. Todo mundo levou alguma coisa e todos assinamos um encarte das Casas Bahia. O Lucas fez outro poema, que declamou e depois escreveu no encarte.

Tudo isso antes da famigerada “divisão por áreas”. Em algum momento antes das férias de julho, o coordenador do terceiro ano passou uma lista para preenchermos com nossas opções para o vestibular. Lista essa que me fez ouvir algumas – várias – vezes a talvez mais conhecida pergunta de um vestibulando de História: “Mas por quê História? Por que não Direito?”

Quando, em agosto, me vi em uma sala nova, olhei em volta e percebi que boa parte do “grupinho” ainda estava lá. Sentamos mais ou menos no mesmo lugar e continuamos nossa vida escolar com um pouco mais de ansiedade: as provas da UFRJ estavam chegando. Foi entre o primeiro e o segundo dia de provas da Federal que eu matei aula pela primeira vez sem concordância do coordenador (em cuja sala eu passei algumas aulas de Português, que tinham o péssimo horário de logo depois do almoço). Foi a primeira vez que fui pega; o inspetor não entendeu nada quando, em vez de escrever na minha caderneta, o coordenador ficou conversando comigo e me liberou para ficar fora de sala até o final daquela aula.

Eu esperei o pavor do terceiro ano até novembro. Ele não chegou. Na verdade, depois do traumático segundo ano (em que tivemos que fazer uma peça de teatro sobre os anos 80 com toda a não-cooperativa turma), quão pior poderia ser? Foi muito melhor. No final do ano, sentada em uma aula quase completamente vazia de revisão de história, depois do resultado do ENEM e da PUC pelo ENEM (e, conseqüentemente, depois de eu saber que tinha meu rumo traçado pelos próximos quatro anos), me dei conta de que em momento algum sentira medo do vestibular. Minha (inexistente) rotina de estudos não se alterara em nada, e eu aproveitara como nunca minhas horas cercada por aquelas paredes verde-água horrorosas.

Na cerimônia de colação de grau, depois de ouvir o discurso do nosso paraninfo – o professor de História 1, Luis Carlos, um dos sujeitos mais fofos que eu conheci no colégio – e de borrar a maquiagem, percebi que não era de começar o terceiro ano que tinha medo. Estava apavorada era de sair dele…

4 comentários

  1. […] Juliana – Lembranças de uma vida escolar […]


  2. O mais interessante desse primeiro desafio – além da identificação com as histórias e, diga-se de passagem, por acompanhar pelo menos um pouquinho dessa sua vivência – é que essa discussão sobre experiências escolares é assunto recorrente do curso que, surpreendetemente, eu me enveredei.

    Certa vez, houve um debate lá na sala, sobre a suposta inconsitência do Ensino Médio: afinal de contas, esse período de três anos é uma preparação pra Faculdade, um aprofundamento do Fundamental, é os dois, é nenhum…?

    Enfim. A resposta, aqui, reflete nos textos dos desafios: há experiências diferentes e escolas diferentes. É um problema (ou uma realidade, como preferir) nas escolas de hoje em dia; o cenário de diferenças dá a impressão de indecisão do que ensinar, visto que algumas não têm consistência nas propostas – outras não têm mesmo propósito.

    A opinião dos pedagogos em geral diz que a sua escola (ou colégio) é o sal da educação brasileira – preparando o aluno pra faculdade, inserindo-o no mercado do trabalho (oi Marx o/). Fica, só pra exemplificar, a questão do aluno que não quer prestar a faculdade… Que fazer?

    O que me leva ao motivo desse comentário, o grande problema que qualquer instituição educacional enfrenta(rá): fazer com que a difereça seja encaixável. Todo aluno precisa fazer parte de alguma coisa sim – tal como a escola. Mas devem fazer parte do que?

    Fica a problemática.

    Abraços


  3. eu amei esse texto parabéns pelo quem o escreveu..

    bjus

    jhé


  4. Muito bom. Adorei.



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