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borboleta

27 novembro, 2008

Estou deitada em um lençol sobre uma das gramas mais verdes que já vi. Às vezes venta, mas só um pouco; o suficiente para espantar o calor do sol que brilha no céu azul e sem nuvens. Os fones sussurram uma música qualquer nos meus ouvidos: talvez Viva la vida, talvez a valsa do Quebra-Nozes. Tudo que vejo é vermelho, estou de olhos fechados, tentando perceber o cheiro desse final de tarde interminável.

Quando abro os olhos, sinto-os atraídos para a ponta do meu nariz. Um impulso me faz querer espantar o que está ali, mas seguro a minha mão e tento focar o pequeno estranho. A pequena. É uma borboleta azul, não muito maior do que uma borracha escolar, que abre e fecha suas asas pousada ali. Com medo de assustar minha diminuta companhia, fecho os olhos novamente e tento manter-me o mais parada possível.

Ouço um latido atrás da música, seguido de risadas. Logo imagino um garoto, uma criança de não mais que sete ou oito anos, brincando com um grande cachorro de pêlos dourados que brilham sob o sol. Toda vez que o menino pega a bola de seu cão, este o responde com uma lambida carinhosa na bochecha. A mãe do garoto não está muito longe, penso eu, mas não se envolve na brincadeira porque está ocupada observando sua caçula, uma bebezinha de cinco meses. Rapidamente todos os personagens têm nome: Tiago é o menino, o cachorro se chama Bolt, Clara é sua mãe, Bianca é o nome da menina, e Cláudio é seu pai, que está preso em algum cruzamento congestionado no trânsito caótico desta cidade infernal.

Volto rapidamente ao meu recanto. Ainda posso sentir uma comichão na ponta de meu nariz. Respiro fundo, porém muito lentamente, para evitar movimentos bruscos. A música de fundo mudou, os sons que me cercam também. Escuto agora um casal conversando. Estão sentados confortavelmente em um banco, sem dúvida, ainda que as ripas de madeira não ofereçam muito conforto. O braço dele envolve os ombros dela e… Não. Ela está deitada no colo dele. Trocam olhares profundos e silenciosos, e só esporadicamente pronunciam alguma palavra. Ela está ansiosa, preocupada com uma mudança iminente. Ele sorri, toca o rosto da companheira carinhosamente, e reafirma a promessa dita e não-dita uma centena de vezes. O nome deles não importa. O que importa é que aquele silêncio é mais significativo do que muitas palavras.

Abro os olhos novamente e lá está a borboleta. Ela parece me olhar profundamente, ou o mais profundamente que uma borboleta pode olhar algo. Penso, então, que talvez ela possa me ver melhor do que muitos. Alguns me veriam e diriam: “que menina boba, de olhos fechados quando há tanta coisa bonita para se ver…” Minha amiga, porém, deve pensar, em sua cabeça de borboleta: “que interessante, vê tanto mesmo de olhos fechados…”

A simples idéia de uma borboleta filosófica pensando me faz rir e, inconseqüentemente, afasto minha companheira. E, creio, esta não deve ser a primeira borboleta que afasto assim.

4 comentários

  1. 🙂
    lindo ju.

    you should try to publish.


  2. Lindo. *_*
    Sério, mexeu comigo. E nem é porque a menininha tinha o meu nome.


  3. Eu não falo nada. Juliana devia ser publicada, definitivamente (e mal vejo a hora de mostrar isso pra Rebeca, na verdade).

    É isso, Ju. Limito-me ao silêncio que, como diz Saramago, ainda é o melhor dos aplausos.

    beijos =*


  4. sempre ótimas leituras quando passo por aqui…

    you should try to publish. [2]



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