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Outtakes – volume 2

28 fevereiro, 2009

Um impulso tirou-o de sua concentração, impulso este que o fez ir até a janela de seu pequeno escritório e olhar os jardins da casa de seu pai. O verde pálido começava a ganhar força e flores começavam a ganhar cor, mas não fora uma súbita vontade no espetáculo erval que o atraíra à janela. Ele ficou parado como que esperando algo acontecer que justificasse sua interrupção. Assim, foi com interesse que viu uma amazona entrar correndo pelos portões, montando um cavalo negro como carvão, à exceção de um pequeno losango branco na testa, entre os olhos. Ela não cavalgava como seria adequado a uma dama, mas sim com uma perna de cada lado do dorso do animal. Ao chegar às portas da mansão, entregou as rédeas ao primeiro serviçal que encontrou; disse-lhe algo, vigorosa o suficiente para fazer o homem acenar com a cabeça da mesma maneira.

Ele deixou o escritório e parou no balcão formado pelo corredor do segundo andar que cercava o salão de entrada da casa. Ajeitou os óculos no rosto, e viu a mulher adentrar o salão com passos vigorosos dado por botas de couro fino e branco que, por não serem apropriadas para montaria, tinham sido severamente danificadas. A saia do vestido também estava bastante marcada e, entre a capa de viagem de cetim verde-escuro e o trançado de linhas da mesma cor que prendia seus cabelos, a única coisa que demonstrava que ela estivera montada poucos minutos antes eram as luvas grossas de couro marrom, que foram retiradas assim que as portas se fecharam atrás dela.

Seu pai tomava vinho e fumava charutos com alguns comerciantes na sala contínua, e foi chamado até o salão. Ele encontrou a mulher e ambos falaram algo que o rapaz, no andar de cima, não pôde ouvir, mas parecia haver urgência nas palavras dela. Ele disse algo a que ela respondeu virando-lhe as costas. Com as mãos, segurou as saias e subiu as escadas mais próximas dela e dele com pressa. Seus passos ecoaram no salão vazio, mas não suas palavras, que de alguma forma foram dirigidas diretamente a ele.

“Seu avô está vivo”, ela falou quando chegou ao segundo andar. O homem mais velho alcançou-a, parecendo um pouco irritado.

“Nós já sofremos o suficiente”, ele disse, segurando-a pelo pulso e puxando-a. A dama fez um movimento vigoroso com o braço e se soltou sem dificuldades.

“Por favor…”

Ainda que a escuridão do apocalipse tivesse caído sobre a casa ele teria reconhecido sua voz. Ela deu um passo à frente, passando na frente de uma janela, e seus olhos castanhos luziram. Não eram olhos altivos ou orgulhosos, mas suplicantes.

“O que você está fazendo aqui?” ele perguntou à moça.

“Encontramos seu avô”, ela explicou, e estancou a aproximação a alguns passos de distância do rapaz. “Ele chegou perto o suficiente da casa de meu pai no campo para o socorrermos.”

Um momento de silêncio pairou entre ambos, ainda separados. Ela torcia nervosamente as luvas de couro, mas não ousava dizer mais nada. Ele deu dois passos à frente.

“Como?”

“Não sei”, ela respondeu, humildemente. “Chamamos o médico, mas a febre apenas aumentou, e a hemorragia não parava. Ele passou a noite chamando por você, por vocês”, ela falou, também se dirigindo ao mais velho..

“Por que eu deveria ir?” o rapaz perguntou, nervoso. Suas mãos suavam frio à simples menção de seu avô.

“Porque isso não é sobre mim”, ela respondeu, a respiração profunda e agitada denunciada pelo balanço de seu peito. “É sobre seu avô.”

Ele acenou com a cabeça, ainda um pouco dormente. A raiva de vê-la tendo a coragem de pisar em sua casa foi abrandada por algo como felicidade melancólica por poder ver o avô mais uma vez.

Quando chegaram às portas do salão, um empregado já os esperava com a capa de viagem do filho de seu senhor, e luvas de equitação tão grossas quanto às da moça. Também seu cavalo estava selado e com o manto de sua casa cobrindo seus flancos. Outro empregado entregou-lhes as rédeas. O rapaz montou e viu a moça montar; de uma bolsa presa à sela, ela tirou uma espada embainhada e lhe entregou.

“Você pode precisar”, ela disse, batendo com os calcanhares no cavalo.

“Por que você veio?”

Ela voltou o olhar para ele, e uma avalanche de memórias e sentimentos que acordaram num piscar de olhos o atingiu por dentro.

“Porque tinha de ser eu.”

4 comentários

  1. Reads sexy!🙂
    Acho que, ultimamente, omitir o nome dos personagens contribuiu para a natureza “outtake” do texto.


  2. Me faz querer ler mais =P


  3. como sempre, dá vontade de ler mais.

    julie-girl é como jane austen, só que com ritmo (y)


  4. julie é como jane austen, só que com ritmo (y) [2]

    e gosto das suas descrições também!

    beijo :*



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