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Fever

2 maio, 2009

Aquela era a primeira vez que o estranho entrava naquele bar. Não conhecia aquela região da cidade, mas chovia, seu pneu furara e, encharcado até os ossos, ele só queria se aquecer. O bar cheio cheirava a sobretudos e guarda-chuvas molhados, e havia apenas um lugar vazio, no balcão. À esquerda estava um homem usando um terno bem cortado e uma gravata de seda; tomava amargurado uma garrafa de cerveja, provavelmente retardando sua volta para casa, a bela esposa e os filhos perfeitos. À direita, estava uma figura muito mais digna de atenção.

Ele a viu primeiro de relance, mas depois não teve pudores em observá-la mais detidamente, seus saltos altos, a meia-calça que mal escondia as pernas reveladas pela saia, o decote modesta porém irresistivelmente preenchido, os lábios vermelhos ardentes ainda que não fartos, os olhos escuros que brilhavam convidativos, os curtos cabelos que formavam uma cortina negra sobre todas aquelas feições que ele agora poderia desenhar de olhos fechados.

“Dia ruim?” ela perguntou em uma voz rouca.

“Digamos que sim”, ele respondeu, pegando seu uísque e bebendo-o de uma só vez. Ele acenou para o barman e pediu outra dose. “Como está a eleição?”

Ela sorriu, e depois riu. Com um movimento, ela jogou os cabelos para trás e virou-se no banco alto, fazendo sua perna roçar de leve contra a calça molhada dele.

“Meu nome é Claire”, ela falou, comendo a azeitona de seu Martini já terminado.

“Auron”, ele disse, por sua vez, tragando um pouco mais do uísque, e arrependendo-se de ter pedido puro.

“Quer me pagar um drink, Auron?”

Ele chamou o atendente, que olhou Claire e, sem perguntar, começou a preparar um Martini seco em silêncio.

“Como está a votação?” Auron perguntou novamente, fazendo-a franzir o cenho.

“O mesmo desastre de sempre”, Claire comentou, entediada. Seus olhos se voltaram para a televisão, que transmitia a apuração dos votos mas era mantida em um som tão baixo que apenas aqueles próximo a ela poderiam escutar. O homem à esquerda de Auron pediu outra cerveja e soluçou. “Ei, Tom, aumente o som!”

O barman que os servira silenciosamente atendeu o pedido enquanto a tela mostrava uma repórter segurando um guarda-chuva vermelho desbotado.

“… e no nono distrito a apuração também foi encerrada”, a voz mecânica anunciou, fazendo com que todas as conversas no bar cessassem. “Assim, temos cinco distritos contra quatro, pela aprovação da nova lei de segurança.”

“Merda”, xingou o bebedor de cerveja antes de se levantar em um pulo e sair do bar, e ele não foi o único no bar a se manifestar de maneira tão enfática.

“Faltam só o terceiro e o quinto, agora”, Tom falou para Claire, que revirou os olhos e tomou um gole de seu Martini. “E você sabe como aquele povo é…”

Auron sentiu sua garganta secar, sem saber se por causa do uísque ou por nervosismo. Ele tinha entrado em um pólo de rejeição à nova lei, e agora precisava manter-se calmo para não trair sua posição de Senador. Cabisbaixo, como se a luz fraca do bar pudesse revelá-lo diante de todos, ele comeu alguns amendoins.

“Você está perdido?” Claire perguntou, virando-se ainda mais em seu banco até ficar de frente para Auron, o tronco ligeiramente reclinado para frente e um sorriso adorável nos lábios.

“Tive um problema com meu carro”, ele respondeu evasivamente.

“O telefone do Tom está mudo… Mas eu moro aqui perto. Gostaria de chamar um reboque?” ela sugeriu, delicadamente, enquanto pescava a azeitona. “Talvez avisar sua esposa que vai chegar tarde?”

O sorriso perdeu sua delicadeza e tornou-se arisco. Auron sabia que deveria ter cuidado, mas o perfume doce que ela exalava era intoxicante.

“Uma senhorita não deveria convidar estranhos.” ele falou, tentando fazer com que a repreensão ao convite servisse também como um freio aos seus desejos.

“O senhor não é um estranho”, ela murmurou, seu rosto agora muito perto do dele. Ninguém parecia prestar atenção aos dois agora. “Seu nome não é Auron e esse não é seu caminho costumeiro para casa.”

O estranho sentiu seus dedos suarem em torno do copo de uísque e nem mesmo a risada divertida de Claire serviu para descontraí-lo.

“Como você sabe…?”

Antes que ele terminasse a pergunta, Claire já tinha colocado seu Martini sobre o balcão e levantado. Quando ele percebeu, ela já colocava seu sobretudo e pegava seu guarda-chuva perto da porta do bar. Ele se levantou o mais rápido que pôde, jogando uma nota sobre o balcão e tentou alcançá-la. Ela já entrando na próxima porta quando ele saiu; não ficou exatamente surpreso quando encontrou a porta entreaberta.

Era um prédio antigo de quatro andares. Ele ouviu o som dos saltos dela batendo contra o chão de pastilhas de porcelana que tentavam fazer um mosaico, sem grande sucesso. Ele subiu as escadas até o terceiro andar, sem se incomodar com as lâmpadas piscando no hall, a tempo de vê-la entrando no apartamento de número 31. Ele estava sendo inconseqüente e irracional, arriscando-se daquela forma. Ele sabia disso, e ainda assim não conseguia refrear-se.

A sala pequena do apartamento estava mal-iluminada por um abajur. No momento em que ele entrou, o resto de sanidade que lhe restava gritou para que ele saísse dali, mas a porta atrás de si fechou com um estalo.

“Claire?” ele chamou, tentando manter-se calmo.

“Esse não é o meu nome…” ela respondeu atrás dele, quase sussurrando em seu ouvido. “…. Daniel.”

Daniel virou-se rápido o suficiente para segurá-la pelo pulso, contra a porta.

“Como você sabia?”

Apesar das sombras, ele pôde ver o rosto dela sorrindo. Não era um sorriso maníaco ou calculista, apenas divertido. E ele se odiou por isso.

“Tenho meus contatos…” ela falou, simplesmente. “Quão ruim foi ver seu pneu furado por um prego na noite de votação?”

Ele apertou ainda mais seus dedos em torno do pulso fino dela antes de soltá-la por completo.

“O que você quer?” ele demandou, dando um passo para trás. Droga, a sombra a deixava ainda mais bonita.

“Nada”, Claire ou quem quer que fosse respondeu, dando um passo para frente. “Ao menos não hoje.” Ela deu outro passo e seu corpo estava colado ao dele. “Vamos fingir por um momento que não temos votações, que você não é um Senador e que eu não posso muito bem ser uma lunática tentando matá-lo…” Ele permaneceu em silêncio enquanto ela corria seus dedos pela manga do sobretudo molhado dele até chegar ao seu ombro. “Você iria embora? Ou ficaria?”

Daniel considerou suas possibilidades. Podia dar as costas a tudo aquilo, chamar Rufo e ir para sua casa como se nada tivesse acontecido. Ou podia ficar e tentar descobrir quem era aquela estranha que, em menos de meia hora, fizera com que ele esquecesse seus problemas habituais para se focar apenas nela. Ele podia fingir que queria conhecê-la apenas para manter sua segurança, mas isso seria uma grande mentira. Ele só queria saber como seria o toque daqueles lábios, e por isso deu vazão a seus impulsos e a beijou nervosa, apressada e apaixonadamente.

4 comentários

  1. […] PS2: Tem conto novo no Imaginary Lines – Fever. […]


  2. É uma situação interessante,
    seria legal se tivesse mais história pra poder encaixar o conto.

    beijinhos


  3. Concordo com a Lyna. Seria legal ter o resto da história ao redor😉

    Beijinhos


  4. Ju, cadê o resto da história? Agora quero saber quem é ela. É da organização Cobra? É Comensal da Morte? Trabalha na Vogue? Ou qualquer outra coisa do mal…

    Beijinhos.



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