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Leaving on a jet plane

14 julho, 2010

Você me mandou não me despedir, lembra?

Eu lembro perfeitamente. Queria contar em uma terça-feira, um dia normal e inofensivo. Mas você não aparecia, não me ligava, seu irmão dizia que você estava em um trabalho de campo. Você chegou no sábado, e eu já estava desesperada. As palavras saíram muito mais confusas do que eu gostaria, em parte pelo nervosismo, em parte pelo vinho. Mas totalmente por sua causa.

Você se levantou e foi como se tudo se borrasse. Eu chorando, você gritando, eu gritando, você chorando. E eu indo embora. Como agora.

Estou parada diante da sua porta, minha mão a dois centímetros da campainha, e não tenho coragem de tocar. Como de costume. Você poderia estar acordado, e então eu teria que me despedir. Não, melhor ir logo. Em silêncio. Como tudo começou.

O táxi chegou dez minutos adiantado e já está buzinando lá embaixo. Abaixo a mão, puxo a alça da mala mais pesada que já carreguei na minha vida e entro no elevador, onde nos vimos pela primeira vez.

Você estava carregando uma pilha de livros. Eu estava carregada de compras. Por cima de um Sartre ou um Camus, você sorriu. E, naquele momento, eu soube que não me daria por satisfeita até descobrir o que te faria rir.

O taxista é muito educado. Ele me ajuda a colocar a bagagem no porta-mala e ignora o desespero no meu rosto. Tenho a nítida impressão de que seus olhos estão queimando em cima de mim, e olho por cima do ombro, mas as cortinas do seu apartamento estão todas fechadas.

Fecho a porta do carro, coloco os óculos escuros laranja que você me deu e fecho os olhos. O rádio martela as notícias da manhã que começa na capital e tudo que eu quero ignorar aqueles sons, e me lembrar do som da sua risada, do estardalhaço que faz a cada texto publicado, do jeito como você franze a testa quando não entende aonde o filme B de sexta de madrugada quer chegar. Quero você, e me pergunto, mais uma vez, porque estou indo, se tudo que quero nesse exato momento é acordar do seu lado domingo de manhã e esperar a hora do almoço até levantar da cama.

A corrida até o aeroporto é muito mais rápida do que eu imaginava. Na fila do check-in, olho para a bagagem no carrinho. Teoricamente, tudo que eu preciso deve estar ali. Muita coisa está. Não o essencial.

Talvez isso seja necessário, talvez seja o melhor. Para nós dois. Você mesmo disse, estávamos nos divertindo. Mas não quero mais me divertir. Especialmente com você.

Talvez tenha sido bom não tocar sua campainha.

Você mesmo me mandou não me despedir, lembra?

Mas, então, por que estou chorando?

2 comentários

  1. Eu gostei, mas eu já te disse isso.
    Gostei da ideia e do texto e principalmente: da falta do essencial.

    As vezes é dificil se lembrar porque estamos fazendo algo…


  2. Já disse que você devia escrever um livro de contos?🙂



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