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videogame crush

4 junho, 2011

Corredor de um shopping em uma cidade grande. Pessoas passam pelos corredores, interessadas nas vitrines e em si mesmas. Em frente a uma loja de videogames, está nosso protagonista. Seus All Star pretos não o levam nem para frente nem para trás, como se estivessem chumbados no piso de mármore falso. Através da porta, vemos um balcão envidraçado. Atrás do balcão, uma garota está no último degrau de uma escada dobrável, limpando a prateleira mais alta de action figures. Ele respira fundo, afunda as mãos nos bolsos do casaco de moletom e entra na loja.

Ela está sozinha na loja e não percebe sua presença até que ele esteja bem perto do balcão.

“Ah, oi!”, ela diz, quase se desequilibrando. Ele não fala nada por um momento, apenas a observa. É incrível como ela fica bonita, mesmo com aquela luz fluorescente doentia. “Veio trocar seu último jogo?”

“Não…” ele responde, tentando lembrar o que estava fazendo ali. “Você tem Dante’s Inferno?”

Ela desce os degraus e ele precisa se concentrar no reflexo da lâmpada no vidro do balcão para não devorar o galho com flores de cerejeira que se enrosca na perna dela.

“Pensei que você gostasse de God of War”, ela comenta, correndo os olhos pela prateleira marcada com um D.

“É um dos melhores aproveitamentos de material conhecido!” ele responde um pouco mais empolgado do que gostaria.

“Pensei que Dante’s Inferno fosse mal escrito…”

Ele se embaraça, revira as mãos nos bolsos e tenta falar alguma coisa. O celular dela toca e ele agradece a distração. É um rock de uma banda da década de 70, que ele só conheceu por causa dela. Ela atende o telefone, dá uma risada e encontra a caixa do jogo. Ele acena, indicando que vai comprar o arremedo de jogo. Ela se despede e desliga o telefone enquanto registra o produto.

“Desculpe, mas precisava atender…”

Ele mal repara no que ela diz. Está mais interessado nas ondas de seus cabelos e na covinha em sua bochecha. Ela se sente um pouco envergonhada, ele reconhece que ela tem razão: um cliente está a encarando há algum tempo enquanto ela estende a máquina do cartão de crédito para que ele digite sua senha. O aparelho cospe o recibo azul, que ela lhe entrega com a nota fiscal e a sacola com o jogo.

“Bom jogo!”, ela lhe deseja, oferecendo-lhe um sorriso cordial e padronizado.

Minutos depois, ele está sentado em uma mesinha, na praça de alimentação do shopping. Seu sorvete de morango está derretendo enquanto ele olha um pouco incrédulo o jogo que acabou de comprar. Todas as resenhas que leu disseram que o jogo não prestava. Seu amigo chega, puxa uma cadeira e não agüenta manter o silêncio por muito tempo.

“Não acredito que você comprou essa porcaria!”

“Não é uma porcaria, é uma releitura da Divina Comédia…” ele retruca, sem muita convicção.

“Isso precisa parar, cara! Esse é, o que, o quarto jogo esse mês?”

“Quinto…” Ele respira fundo e joga a caixa com raiva dentro da sacola colorida. “Não é ruim…”

“Ela sabe quem você é?”

Ele toma uma colherada do sorvete, olha para o amigo e sente-se frustrado.

“Não…”

“Então é ruim. Cara, é muito ruim!”

One comment

  1. True story!



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