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O castelo nas nuvens

8 julho, 2013

Quando partimos, éramos um exército glorioso; agora, éramos nada mais do que um bando deplorável de corpos famintos e exaustos. Nossas almas, porém, continuavam tão fortes quanto no dia em que deixamos nossas casas, e era essa força que guiava nosso caminho através noites frias de inverno e dias escaldantes de verão.

As solas de nossos sapatos tinham ido havia muito. Idos também eram os tempos em que nos preocupávamos com seu conserto e em que tínhamos material para fazê-lo. A maior parte de nossos cavalos tinha ficado pelo caminho. Assim como alguns de nós. Eu não conseguia cantar com aqueles que ainda estavam de pé e caminhando, porque minha boca estava seca e meus lábios ainda estavam feridos de minha última briga. A corda apertando meu pescoço também era um empecilho, especialmente por ser puxada implacavelmente conforme avançávamos. Eu não reclamava, mas não cantava tampouco.

O canto era uma forma de garantir que não estávamos perdendo a razão, alguém uma vez sussurrara em meu ouvido em uma noite fresca e estrelada de primavera. Era uma forma de garantir que não nos esqueceríamos de quem éramos e porque marchávamos. E ainda assim começava a parecer mais e mais uma ideia fixa e menos e menos uma história e uma esperança de futuro.

Eles cantavam sobre um castelo nas nuvens, e era também por isso que eu não tomava parte. Porque a primeira pessoa a me falar sobre o castelo fora meu pai, e ele me contara sobre um lugar onde sempre era primavera e onde qualquer um poderia ser qualquer coisa. Era um castelo e uma cidade e uma promessa de dias melhores, então eu não poderia me permitir acreditar nisso ou sequer lembrar das histórias que me foram contadas pelas pessoas que um dia me amaram.

Eu sabia que o final da estrada não estava longe. Andávamos através a floresta profunda por dias, os penhascos não estariam longe se acreditássemos nas histórias. Contudo, os dias se tornaram semanas e um mês se passou sem qualquer sinal de que as árvores se abririam diante de nós ou de que o canto desvaneceria. Tive esperanças, pela primeira vez, de que a estrada serpentearia para longe das escarpas e para longe do castelo que tão avidamente queria ver quando criança e que agora temia profundamente.

Afinal, a estrada nos colocou na direção certa. Encontramo-nos cruzando o desfiladeiro de um lado para o outro, sem ousar olhar para cima. Alguns diziam que não estávamos prontos para alcançar nosso destino, outros respondiam que nossos mapas estavam simplesmente obsoletos ou mal copiados, e seguimos em frente.

Após os longos dias na floresta, o par de dias que levamos para atravessar o desfiladeiro pareceram uma brisa. Tão rápidos que nenhum de nós estava pronto quando finalmente o vimos.

Era a primeira vez em meses que a cantoria parava e só então percebi como, mesmo quando a noite fora silenciosa, alguém cantara através das horas, como vozes abafadas chamaram aquelas memórias e aquelas promessas sem nunca cessar.

O silêncio caiu estranho em meus ouvidos.

Pessoas caíam, alguns chorando, outros simplesmente olhando o que tínhamos buscado. Ainda levaríamos uma semana para escalar a encosta e alcançar as portas, mas agora o objetivo tinha uma forma. Tinha cores. Tinha até mesmo sons.

O castelo nas nuvens olhava para baixo e nos desprezava, enquanto erguíamos nossas cabeças para admirá-lo.

Era tudo que meu pai me contara. Os muros eram brancos como a neve, os estandartes eram coloridos como os bobos das feiras, o cheiro da grama esmagada sob nossos pés era tão fresco e doce quanto minha imaginação juvenil havia suposto.

Ainda assim, eu estava de pé. Não sentia meus joelhos falharem sob meu peso como imaginara que fariam. Não sentia um rio de lágrimas ou de risadas lavar meu corpo. Não sentia que o castelo nas nuvens guardava em si as chances de um novo começo.

Todos havíamos partido em busca de algo. Para mim, era meu destino final. Trouxeram-me para o castelo não para começar de novo, mas para terminar tudo.

Trouxeram-me para o castelo para que eu fosse julgada e executada.


Alm-Atias Refuge
 by *andreasrocha on deviantART

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A gente cresce

29 novembro, 2011

A gente cresce, se muda, se casa, corta o cabelo, sacode a poeira, faz tatuagem, arruma um emprego.

A gente cresce, mas a vida também é correr pela chuva, jogar bola de gude, ralar o joelho, ter medo do bicho-papão.

A gente cresce e esquece que a vida também acontece do outro lado do espelho.

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this is the night

15 julho, 2011

Não vou dedicar esse texto a sete pessoas, porque com certeza cometeria alguma injustiça.
Dedico aos meus amigos, que vão entender isso melhor do que ninguém;
a minha mãe, que me apresentou a um menino que morava debaixo da escada;
a David Yates, que entendeu uma escola, seus alunos e seus professores magistralmente;
ao Caio, que embarcou na minha loucura;
e a Joanne Rowling, sem quem isso não existiria.

Como você se despede de algo que está há dez anos na sua vida? Com o que você cresceu e se encontrou? Que te abriu portas e indicou caminhos com os quais você antes meramente sonharia? Que te trouxe pessoas maravilhosas, sem as quais sua vida não seria a mesma?

Acho que você não se despede. Não de verdade.

Ontem foi a pré-estreia de Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte II. Ontem foi uma noite de gritos (mesmo que eu esteja sem voz), de palmas, de risadas. Foi uma noite de lágrimas, muitas lágrimas. Não tenho vergonha de dizer que chorei. Por causa do filme, sim… Mas por causa de algo muito maior. Chorei de pura emoção por um capítulo que termina, mas que nunca vai ser apagado.

Já li tantos textos bonitos que nem sei como me expressar sem pensar neles. Porque eles falam tanto de tudo que eu senti e sinto que é impossível não me identificar com eles.

Eu era uma menina tímida aos 12 anos, quando mergulhei de cabeça nesse mundo. Em 2000, eu passei por desafios para encontrar uma Pedra Filosofal e aprender que para uma mente bem-estruturada, a morte é apenas a próxima aventura; desci ao mais fundo de Hogwarts para abrir uma Câmara Secreta e vi de perto como alguém pode ser manipulado até se perder quase por completo; aprendi que um Prisioneiro de Azkaban pode não ser o vilão, no final das contas e que todos merecem uma segunda chance.

Depois, foi a vez do meu nome ser sorteado por um sinistro Cálice de Fogo e entender que, nos grandes momentos, embora sejamos de países diferentes e falemos línguas diferentes, nossos corações batem como um só. Cheguei ao auge da adolescência, da rebeldia juvenil e quis me juntar à Ordem da Fênix (mas acabei foi fazendo parte de uma certa armada…).

Depois, me intriguei com o Enigma do Príncipe, vi um grande diretor e professor morrer diante dos meus olhos sem poder fazer nada e chorei com o canto de uma fênix que não mais renasceria. E foi difícil aceitar que, tão cedo, eu teria de dar adeus para Hogwarts e, no meio de uma guerra, ainda ter de ouvir um conto infantil para entender as três Relíquias da Morte.

E, durante todos esses anos, aprendi que os amigos podem aparecer de forma inusitada, que professores podem ter muito mais a contar do que parecem ter, que por mais que tentemos entender a morte ela continua a causar saudade. Que os ousados, os fieis e os inteligentes podem defender uma escola, mas que um homem ambicioso pode ser também o mais corajoso que já conheci. Acima de tudo, que aqueles que nós amamos, nunca nos deixam realmente. E nós nunca os deixamos.

Porque Harry Potter não foi uma série de livros e de filmes. Harry Potter foi muito, muito mais do que isso. E as lágrimas… Elas são porque pude compartilhar com alguém tudo isso, e cada uma delas eu dedico a vocês, meus amigos, que sofreram com a antecipação de um lançamento, reclamaram da escalação de um ator, se revoltaram com alguma reviravolta de trama, mas que nunca abandonaram Harry.

A noite de ontem me fez lembrar que encontrar amigos antigos não tem preço, assim como fazer novos. Que Harry Potter nos uniu por um motivo, que a maior parte dos críticos simplesmente não consegue compreender.

E que, por mais que o dia 15 de julho de 2011 seja um marco, tudo não acaba aqui.

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guilty pleasures

6 julho, 2011

Enquanto vejo Cantando na Chuva, me recordei das recomendações que fiz, há mais de dois anos. Nossa, como o tempo passa rápido…

Curiosamente, hoje um certo alguém me fez pensar muito em outro tópico da lista: ter um prazer daqueles meio embaraçosos. E como, também curiosamente, eu mesma estava me concentrando mais na parte do embaraço do que na parte prazerosa desse tipo de coisa. O que já é cansativo por si só, já que há toda uma dedicação à parte prazerosa, e depois todo um esforço para a parte do reconhecimento do embaraçoso.

Mas decidi que negação não é comigo. Então, agora, eu estufo o peito e admito: meu nome é Juliana, tenho 23 anos ui, e sou viciada em livros. Mesmo em alguns de qualidade duvidosa. E resolvi ser feliz assim.

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videogame crush

4 junho, 2011

Corredor de um shopping em uma cidade grande. Pessoas passam pelos corredores, interessadas nas vitrines e em si mesmas. Em frente a uma loja de videogames, está nosso protagonista. Seus All Star pretos não o levam nem para frente nem para trás, como se estivessem chumbados no piso de mármore falso. Através da porta, vemos um balcão envidraçado. Atrás do balcão, uma garota está no último degrau de uma escada dobrável, limpando a prateleira mais alta de action figures. Ele respira fundo, afunda as mãos nos bolsos do casaco de moletom e entra na loja.

Ela está sozinha na loja e não percebe sua presença até que ele esteja bem perto do balcão.

“Ah, oi!”, ela diz, quase se desequilibrando. Ele não fala nada por um momento, apenas a observa. É incrível como ela fica bonita, mesmo com aquela luz fluorescente doentia. “Veio trocar seu último jogo?”

“Não…” ele responde, tentando lembrar o que estava fazendo ali. “Você tem Dante’s Inferno?”

Ela desce os degraus e ele precisa se concentrar no reflexo da lâmpada no vidro do balcão para não devorar o galho com flores de cerejeira que se enrosca na perna dela.

“Pensei que você gostasse de God of War”, ela comenta, correndo os olhos pela prateleira marcada com um D.

“É um dos melhores aproveitamentos de material conhecido!” ele responde um pouco mais empolgado do que gostaria.

“Pensei que Dante’s Inferno fosse mal escrito…”

Ele se embaraça, revira as mãos nos bolsos e tenta falar alguma coisa. O celular dela toca e ele agradece a distração. É um rock de uma banda da década de 70, que ele só conheceu por causa dela. Ela atende o telefone, dá uma risada e encontra a caixa do jogo. Ele acena, indicando que vai comprar o arremedo de jogo. Ela se despede e desliga o telefone enquanto registra o produto.

“Desculpe, mas precisava atender…”

Ele mal repara no que ela diz. Está mais interessado nas ondas de seus cabelos e na covinha em sua bochecha. Ela se sente um pouco envergonhada, ele reconhece que ela tem razão: um cliente está a encarando há algum tempo enquanto ela estende a máquina do cartão de crédito para que ele digite sua senha. O aparelho cospe o recibo azul, que ela lhe entrega com a nota fiscal e a sacola com o jogo.

“Bom jogo!”, ela lhe deseja, oferecendo-lhe um sorriso cordial e padronizado.

Minutos depois, ele está sentado em uma mesinha, na praça de alimentação do shopping. Seu sorvete de morango está derretendo enquanto ele olha um pouco incrédulo o jogo que acabou de comprar. Todas as resenhas que leu disseram que o jogo não prestava. Seu amigo chega, puxa uma cadeira e não agüenta manter o silêncio por muito tempo.

“Não acredito que você comprou essa porcaria!”

“Não é uma porcaria, é uma releitura da Divina Comédia…” ele retruca, sem muita convicção.

“Isso precisa parar, cara! Esse é, o que, o quarto jogo esse mês?”

“Quinto…” Ele respira fundo e joga a caixa com raiva dentro da sacola colorida. “Não é ruim…”

“Ela sabe quem você é?”

Ele toma uma colherada do sorvete, olha para o amigo e sente-se frustrado.

“Não…”

“Então é ruim. Cara, é muito ruim!”

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um dia

7 maio, 2011

Eles se encontraram naquela fase em que planos são mais sonhos do que planejamentos, e quando tudo é possível e nada é inalcançável. Mas o tempo passou e os dois, que eram tão iguais, ficaram cada vez mais diferentes. Ele queria uma carreira, uma família, uma casa. Ela queria viajar o mundo, um passaporte carimbado, a vida toda dentro de uma mala de cinco quilos ou menos.

Ela foi; ele ficou. Os e-mails diários viraram postais semanais. Os postais viraram cartas mensais. As cartas se transformaram em telefonemas cada vez mais esporádicos. Um dia, ela ligou para agradecer o convite de casamento que vira em sua caixa postal, com quatro semanas de atraso. Um dia, ele recebeu em casa uma bela caixa despachada do outro lado do mundo com um grande álbum de fotografias, presente para a nova família.

Um dia, a vida passou.

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saudades dos tempos simples

4 maio, 2011

Outro dia, eu disse: saudade dos tempos simples, quando a pior dor era um joelho ralado e o maior medo era do escuro.

Veja bem, eu era uma menina travessa, do tipo que corria e brincava com os meninos mesmo sendo uns dez centímetros mais baixa do que eles – obviamente, eu já tinha problemas com limites pessoais desde então. Por isso, não tinha semana que não voltasse da escola com um joelho, cotovelo ou perna pintados de mercúrio. Eu detestava mertiolate – que naquela época ardia horrores – e, convenhamos, andar por aí com o machucado pintado de vermelho tinha uma aura quase de ferimento de guerra. Ser pequena tinha suas vantagens – como os melhores e mais improváveis esconderijos no pique-esconde – mas também tinha suas desvantagens – aparentemente, e contrariando cálculos físicos, quando mais leve você é, mais difícil é parar de rolar ladeira abaixo.

Com certeza eram tempos mais simples do que os atuais, e a frase lá de cima poderia ser completada com mais uma pá de diferentes coisas. Como, por exemplo: quando as maiores contas eram as da prova de matemática.

Nos últimos tempos, tenho pensado bastante nessa coisa toda de crescer. Bom, eu já parei de crescer há alguns anos, mas… Não é como se eu pudesse usar, aos 22 anos, o verbo envelhecer impunemente (embora as marquinhas embaixo dos olhos não parem de marcar território). Então, sim, crescer. Lidar com as coisas de gente grande, como prazos, chefe, orientador, documentos, decisões.

Porque acho que a coisa mais marcante nessa vida de gente grande é tomar decisões – e arcar com as conseqüências de cada uma delas. Escolher implica em deixar de lado todas as alternativas, e ao mesmo tempo significa marcar um caminho como seu.

Os tempos simples também eram tempos de menos escolhas – e, por isso mesmo, de menos possibilidades.

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