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What a colourful world

28 Setembro, 2009

Forrest Gump acha que a vida é uma caixa de bombons. Concordo. No entanto, como o chocolate me é proibido pela próxima semana, prefiro pensar que a minha vida é como minha caixa de esmaltes.

Quando abro minha caixa de esmaltes, me deparo comigo e com aqueles que me cercam. Alguns são as cores da estação, o vidrinho que eu comprei no impulso e vou usar, no máximo, uma vez, enquanto não enjoar da novidade e da agitação. Depois, eles vão ser relegados ao limbo da memória, ficando registrado apenas em uma foto da qual posso gostar por mim, mas não por eles.

Outros são os tons estranhos, para os quais muitos torcem o nariz mas que, para mim, são essenciais. Sem eles, minha vida seria sem graça e sem cor.

Existem aqueles que básicos, que vão com qualquer coisa, com os quais conto em um dia de pouca criatividade ou pouco ânimo. Coloco com esses os clássicos, aqueles que chegaram tantas coleções atrás e que sempre me fazem sentir bem.

E, para completar minha coleção, existem aqueles que são a base. Sem eles, não há cor que funcione ou que dure muito tempo, pois sem eles eu não existo.

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Recomendações

9 Junho, 2009

A vida é cheia de recomendações. Aonde quer que você vá, sempre tem alguém de prontidão, esperando a hora certa para falar aquele “É melhor você…” ou então um “Não seria melhor…?”, além do clássico “Se eu fosse você…”. Claro, você pode adotar a filosofia de que se conselho fosse bom, não se dava, vendia-se. Mas, vez ou outra, você pode ouvir algo que faça você ver uma luz ou ter uma epifania. Talvez seja o caso bíblico de se ter ouvidos de ouvir – a mesma frase em qualquer outro dia suscitaria uma indiferença calada ou uma ira ensurdecedora.

Também tenho minhas recomendações. Algumas, ouvi por aí, outras são elaborações minhas. Em 21 anos, alguma coisa eu tinha de aprender…

1)      Sempre leve guarda-chuva. Mesmo se estiver um sol de rachar. Especialmente se você estiver no Rio. Mais especialmente ainda se for verão.

2)      Não misture bebidas. Estraga seu paladar, sua cabeça e seu estômago.

3)      Não perca uma oportunidade de ver Cantando na Chuva. E se inspire em Gene Kelly – esqueça o guarda-chuva dentro da bolsa quando estiver chegando em casa e saia singing and dancing in the rain

4)      Releia pelo menos um livro por ano. A gente se espanta sempre que vê a quantidade de coisas que deixa escapar em uma primeira leitura.

5)      Fale. Com seus pais. E com seus amigos. E sozinho!

6)      Beba muita água no verão. E mais ainda no inverno. É incrível como seu organismo sente falta de água no frio…

7)      Escreva um pouco a cada dia. Nem que seja num guardanapo. Ou no saco do pão. Ou mentalmente.

8)      Conhece-te a ti mesmo. Ok, essa é dos gregos. Mas já se passaram mais de dois mil anos e não aprendemos nada ainda.

9)      Tenha um prazer. Mas daqueles bem embaraçosos, como gostar de Gossip Girl ou de Crepúsculo.

10)  Apaixone-se. Por você, pelo seu namorado, pelo seu trabalho, pela vida.

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Fever

2 Maio, 2009

Aquela era a primeira vez que o estranho entrava naquele bar. Não conhecia aquela região da cidade, mas chovia, seu pneu furara e, encharcado até os ossos, ele só queria se aquecer. O bar cheio cheirava a sobretudos e guarda-chuvas molhados, e havia apenas um lugar vazio, no balcão. À esquerda estava um homem usando um terno bem cortado e uma gravata de seda; tomava amargurado uma garrafa de cerveja, provavelmente retardando sua volta para casa, a bela esposa e os filhos perfeitos. À direita, estava uma figura muito mais digna de atenção.

Ele a viu primeiro de relance, mas depois não teve pudores em observá-la mais detidamente, seus saltos altos, a meia-calça que mal escondia as pernas reveladas pela saia, o decote modesta porém irresistivelmente preenchido, os lábios vermelhos ardentes ainda que não fartos, os olhos escuros que brilhavam convidativos, os curtos cabelos que formavam uma cortina negra sobre todas aquelas feições que ele agora poderia desenhar de olhos fechados.

“Dia ruim?” ela perguntou em uma voz rouca.

“Digamos que sim”, ele respondeu, pegando seu uísque e bebendo-o de uma só vez. Ele acenou para o barman e pediu outra dose. “Como está a eleição?”

Ela sorriu, e depois riu. Com um movimento, ela jogou os cabelos para trás e virou-se no banco alto, fazendo sua perna roçar de leve contra a calça molhada dele.

“Meu nome é Claire”, ela falou, comendo a azeitona de seu Martini já terminado.

“Auron”, ele disse, por sua vez, tragando um pouco mais do uísque, e arrependendo-se de ter pedido puro.

“Quer me pagar um drink, Auron?”

Ele chamou o atendente, que olhou Claire e, sem perguntar, começou a preparar um Martini seco em silêncio.

“Como está a votação?” Auron perguntou novamente, fazendo-a franzir o cenho.

“O mesmo desastre de sempre”, Claire comentou, entediada. Seus olhos se voltaram para a televisão, que transmitia a apuração dos votos mas era mantida em um som tão baixo que apenas aqueles próximo a ela poderiam escutar. O homem à esquerda de Auron pediu outra cerveja e soluçou. “Ei, Tom, aumente o som!”

O barman que os servira silenciosamente atendeu o pedido enquanto a tela mostrava uma repórter segurando um guarda-chuva vermelho desbotado.

“… e no nono distrito a apuração também foi encerrada”, a voz mecânica anunciou, fazendo com que todas as conversas no bar cessassem. “Assim, temos cinco distritos contra quatro, pela aprovação da nova lei de segurança.”

“Merda”, xingou o bebedor de cerveja antes de se levantar em um pulo e sair do bar, e ele não foi o único no bar a se manifestar de maneira tão enfática.

“Faltam só o terceiro e o quinto, agora”, Tom falou para Claire, que revirou os olhos e tomou um gole de seu Martini. “E você sabe como aquele povo é…”

Auron sentiu sua garganta secar, sem saber se por causa do uísque ou por nervosismo. Ele tinha entrado em um pólo de rejeição à nova lei, e agora precisava manter-se calmo para não trair sua posição de Senador. Cabisbaixo, como se a luz fraca do bar pudesse revelá-lo diante de todos, ele comeu alguns amendoins.

“Você está perdido?” Claire perguntou, virando-se ainda mais em seu banco até ficar de frente para Auron, o tronco ligeiramente reclinado para frente e um sorriso adorável nos lábios.

“Tive um problema com meu carro”, ele respondeu evasivamente.

“O telefone do Tom está mudo… Mas eu moro aqui perto. Gostaria de chamar um reboque?” ela sugeriu, delicadamente, enquanto pescava a azeitona. “Talvez avisar sua esposa que vai chegar tarde?”

O sorriso perdeu sua delicadeza e tornou-se arisco. Auron sabia que deveria ter cuidado, mas o perfume doce que ela exalava era intoxicante.

“Uma senhorita não deveria convidar estranhos.” ele falou, tentando fazer com que a repreensão ao convite servisse também como um freio aos seus desejos.

“O senhor não é um estranho”, ela murmurou, seu rosto agora muito perto do dele. Ninguém parecia prestar atenção aos dois agora. “Seu nome não é Auron e esse não é seu caminho costumeiro para casa.”

O estranho sentiu seus dedos suarem em torno do copo de uísque e nem mesmo a risada divertida de Claire serviu para descontraí-lo.

“Como você sabe…?”

Antes que ele terminasse a pergunta, Claire já tinha colocado seu Martini sobre o balcão e levantado. Quando ele percebeu, ela já colocava seu sobretudo e pegava seu guarda-chuva perto da porta do bar. Ele se levantou o mais rápido que pôde, jogando uma nota sobre o balcão e tentou alcançá-la. Ela já entrando na próxima porta quando ele saiu; não ficou exatamente surpreso quando encontrou a porta entreaberta.

Era um prédio antigo de quatro andares. Ele ouviu o som dos saltos dela batendo contra o chão de pastilhas de porcelana que tentavam fazer um mosaico, sem grande sucesso. Ele subiu as escadas até o terceiro andar, sem se incomodar com as lâmpadas piscando no hall, a tempo de vê-la entrando no apartamento de número 31. Ele estava sendo inconseqüente e irracional, arriscando-se daquela forma. Ele sabia disso, e ainda assim não conseguia refrear-se.

A sala pequena do apartamento estava mal-iluminada por um abajur. No momento em que ele entrou, o resto de sanidade que lhe restava gritou para que ele saísse dali, mas a porta atrás de si fechou com um estalo.

“Claire?” ele chamou, tentando manter-se calmo.

“Esse não é o meu nome…” ela respondeu atrás dele, quase sussurrando em seu ouvido. “…. Daniel.”

Daniel virou-se rápido o suficiente para segurá-la pelo pulso, contra a porta.

“Como você sabia?”

Apesar das sombras, ele pôde ver o rosto dela sorrindo. Não era um sorriso maníaco ou calculista, apenas divertido. E ele se odiou por isso.

“Tenho meus contatos…” ela falou, simplesmente. “Quão ruim foi ver seu pneu furado por um prego na noite de votação?”

Ele apertou ainda mais seus dedos em torno do pulso fino dela antes de soltá-la por completo.

“O que você quer?” ele demandou, dando um passo para trás. Droga, a sombra a deixava ainda mais bonita.

“Nada”, Claire ou quem quer que fosse respondeu, dando um passo para frente. “Ao menos não hoje.” Ela deu outro passo e seu corpo estava colado ao dele. “Vamos fingir por um momento que não temos votações, que você não é um Senador e que eu não posso muito bem ser uma lunática tentando matá-lo…” Ele permaneceu em silêncio enquanto ela corria seus dedos pela manga do sobretudo molhado dele até chegar ao seu ombro. “Você iria embora? Ou ficaria?”

Daniel considerou suas possibilidades. Podia dar as costas a tudo aquilo, chamar Rufo e ir para sua casa como se nada tivesse acontecido. Ou podia ficar e tentar descobrir quem era aquela estranha que, em menos de meia hora, fizera com que ele esquecesse seus problemas habituais para se focar apenas nela. Ele podia fingir que queria conhecê-la apenas para manter sua segurança, mas isso seria uma grande mentira. Ele só queria saber como seria o toque daqueles lábios, e por isso deu vazão a seus impulsos e a beijou nervosa, apressada e apaixonadamente.

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Outtakes – volume 2

28 Fevereiro, 2009

Um impulso tirou-o de sua concentração, impulso este que o fez ir até a janela de seu pequeno escritório e olhar os jardins da casa de seu pai. O verde pálido começava a ganhar força e flores começavam a ganhar cor, mas não fora uma súbita vontade no espetáculo erval que o atraíra à janela. Ele ficou parado como que esperando algo acontecer que justificasse sua interrupção. Assim, foi com interesse que viu uma amazona entrar correndo pelos portões, montando um cavalo negro como carvão, à exceção de um pequeno losango branco na testa, entre os olhos. Ela não cavalgava como seria adequado a uma dama, mas sim com uma perna de cada lado do dorso do animal. Ao chegar às portas da mansão, entregou as rédeas ao primeiro serviçal que encontrou; disse-lhe algo, vigorosa o suficiente para fazer o homem acenar com a cabeça da mesma maneira.

Ele deixou o escritório e parou no balcão formado pelo corredor do segundo andar que cercava o salão de entrada da casa. Ajeitou os óculos no rosto, e viu a mulher adentrar o salão com passos vigorosos dado por botas de couro fino e branco que, por não serem apropriadas para montaria, tinham sido severamente danificadas. A saia do vestido também estava bastante marcada e, entre a capa de viagem de cetim verde-escuro e o trançado de linhas da mesma cor que prendia seus cabelos, a única coisa que demonstrava que ela estivera montada poucos minutos antes eram as luvas grossas de couro marrom, que foram retiradas assim que as portas se fecharam atrás dela.

Seu pai tomava vinho e fumava charutos com alguns comerciantes na sala contínua, e foi chamado até o salão. Ele encontrou a mulher e ambos falaram algo que o rapaz, no andar de cima, não pôde ouvir, mas parecia haver urgência nas palavras dela. Ele disse algo a que ela respondeu virando-lhe as costas. Com as mãos, segurou as saias e subiu as escadas mais próximas dela e dele com pressa. Seus passos ecoaram no salão vazio, mas não suas palavras, que de alguma forma foram dirigidas diretamente a ele.

“Seu avô está vivo”, ela falou quando chegou ao segundo andar. O homem mais velho alcançou-a, parecendo um pouco irritado.

“Nós já sofremos o suficiente”, ele disse, segurando-a pelo pulso e puxando-a. A dama fez um movimento vigoroso com o braço e se soltou sem dificuldades.

“Por favor…”

Ainda que a escuridão do apocalipse tivesse caído sobre a casa ele teria reconhecido sua voz. Ela deu um passo à frente, passando na frente de uma janela, e seus olhos castanhos luziram. Não eram olhos altivos ou orgulhosos, mas suplicantes.

“O que você está fazendo aqui?” ele perguntou à moça.

“Encontramos seu avô”, ela explicou, e estancou a aproximação a alguns passos de distância do rapaz. “Ele chegou perto o suficiente da casa de meu pai no campo para o socorrermos.”

Um momento de silêncio pairou entre ambos, ainda separados. Ela torcia nervosamente as luvas de couro, mas não ousava dizer mais nada. Ele deu dois passos à frente.

“Como?”

“Não sei”, ela respondeu, humildemente. “Chamamos o médico, mas a febre apenas aumentou, e a hemorragia não parava. Ele passou a noite chamando por você, por vocês”, ela falou, também se dirigindo ao mais velho..

“Por que eu deveria ir?” o rapaz perguntou, nervoso. Suas mãos suavam frio à simples menção de seu avô.

“Porque isso não é sobre mim”, ela respondeu, a respiração profunda e agitada denunciada pelo balanço de seu peito. “É sobre seu avô.”

Ele acenou com a cabeça, ainda um pouco dormente. A raiva de vê-la tendo a coragem de pisar em sua casa foi abrandada por algo como felicidade melancólica por poder ver o avô mais uma vez.

Quando chegaram às portas do salão, um empregado já os esperava com a capa de viagem do filho de seu senhor, e luvas de equitação tão grossas quanto às da moça. Também seu cavalo estava selado e com o manto de sua casa cobrindo seus flancos. Outro empregado entregou-lhes as rédeas. O rapaz montou e viu a moça montar; de uma bolsa presa à sela, ela tirou uma espada embainhada e lhe entregou.

“Você pode precisar”, ela disse, batendo com os calcanhares no cavalo.

“Por que você veio?”

Ela voltou o olhar para ele, e uma avalanche de memórias e sentimentos que acordaram num piscar de olhos o atingiu por dentro.

“Porque tinha de ser eu.”

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Vivendo Intensamente os Dias Atuais

10 Fevereiro, 2009

Sair para comer. E para beber. Talvez dançar. Conversar até tarde, muito tarde. Talvez virar a noite. Ouvir música no mp3 player – ou tirar onda de ter um iPod. Mandar mensagem de texto pelo celular. Entrar na internet. Passar horas fazendo pesquisas. Ou só ficando de bobeira no MSN – e reclamar quando não tem ninguém de bobeira no MSN com você. Partir para o Orkut, fuxicar a vida dos outros. Reclamar quando alguém usa um fake para fuxicar a sua vida

Ler livros bons. E ruins também – para saber diferenciá-los. Ou para se divertir mesmo. Ver séries novas. Ver exaustivamente séries antigas. Comer pipoca. E outras besteiras recém-inventadas. Fazer receitas ruins e queimar as pontas dos dedos. Lambuzar-se de brigadeiro. E picolé de limão. Escrever. Escrever até cansar – você e os outros. Escrever aventura, fantasia, drama, humor, aventura…

Fazer amigos. Dos mais variados. E apaixonar-se. Pelo menos uma vez. E todos os dias.

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random

8 Fevereiro, 2009

Um dia, ainda crio coragem, estufo o peito e digo com todas as minhas forças:

Manhê, quando eu crescer, vou ser escritora.

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new year’s day

18 Janeiro, 2009

Passamos o Ano Novo no Japão. Isso, por si só, já é um fato memorável. Afinal, não é todo dia 31/12 que você está do outro lado do planeta (aliás, literalmente, já que a diferença daqui para lá é de 12 horas). Mas o que você faz em um país que não comemora o Ano Novo do jeito que você está acostumado, com fogos, campanhe barata e gente nas ruas? Você procura o mais próximo disso – e encontramos. Esperamos ansiosos a contagem regressiva. E quando ela começou, qual não é nossa surpresa quando…não entendemos uma palavra do que é dito?

Feliz Ano Novo, claro, mas quando 2009 começou mesmo, hein?

Eu ainda não sei. Sempre passo por esses momentos de ajuste, de escrever o ano errado quando estou datando algo… Não é de se estranhar que, então, que ainda não tenha percebido, com toda a força, que é 2009. Não fiz promessas de ano novo – fundamentais, mesmo que você não cumpra nada. Não fiz balanço geral de 2008.

O que eu posso dizer é que 2009 promete. Promete um show do Coldplay (que Deus sabe se vai acontecer mesmo ou não). Promete muito trabalho, muito estudo e um pouco de reclamações (elas fazem parte da vida!). Promete uma viagem. Promete Harry Potter and the Half Blood Prince no cinema, finalmente. Promete leitura. E promete amor. 2009 promete muito amor.

E é isso que desejo a todos. Mesmo que atrasado. Mas, ei, o ano nem começou direito ainda!

Trilha sonora: New Year’s Day, U2

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borboleta

27 Novembro, 2008

Estou deitada em um lençol sobre uma das gramas mais verdes que já vi. Às vezes venta, mas só um pouco; o suficiente para espantar o calor do sol que brilha no céu azul e sem nuvens. Os fones sussurram uma música qualquer nos meus ouvidos: talvez Viva la vida, talvez a valsa do Quebra-Nozes. Tudo que vejo é vermelho, estou de olhos fechados, tentando perceber o cheiro desse final de tarde interminável.

Quando abro os olhos, sinto-os atraídos para a ponta do meu nariz. Um impulso me faz querer espantar o que está ali, mas seguro a minha mão e tento focar o pequeno estranho. A pequena. É uma borboleta azul, não muito maior do que uma borracha escolar, que abre e fecha suas asas pousada ali. Com medo de assustar minha diminuta companhia, fecho os olhos novamente e tento manter-me o mais parada possível.

Ouço um latido atrás da música, seguido de risadas. Logo imagino um garoto, uma criança de não mais que sete ou oito anos, brincando com um grande cachorro de pêlos dourados que brilham sob o sol. Toda vez que o menino pega a bola de seu cão, este o responde com uma lambida carinhosa na bochecha. A mãe do garoto não está muito longe, penso eu, mas não se envolve na brincadeira porque está ocupada observando sua caçula, uma bebezinha de cinco meses. Rapidamente todos os personagens têm nome: Tiago é o menino, o cachorro se chama Bolt, Clara é sua mãe, Bianca é o nome da menina, e Cláudio é seu pai, que está preso em algum cruzamento congestionado no trânsito caótico desta cidade infernal.

Volto rapidamente ao meu recanto. Ainda posso sentir uma comichão na ponta de meu nariz. Respiro fundo, porém muito lentamente, para evitar movimentos bruscos. A música de fundo mudou, os sons que me cercam também. Escuto agora um casal conversando. Estão sentados confortavelmente em um banco, sem dúvida, ainda que as ripas de madeira não ofereçam muito conforto. O braço dele envolve os ombros dela e… Não. Ela está deitada no colo dele. Trocam olhares profundos e silenciosos, e só esporadicamente pronunciam alguma palavra. Ela está ansiosa, preocupada com uma mudança iminente. Ele sorri, toca o rosto da companheira carinhosamente, e reafirma a promessa dita e não-dita uma centena de vezes. O nome deles não importa. O que importa é que aquele silêncio é mais significativo do que muitas palavras.

Abro os olhos novamente e lá está a borboleta. Ela parece me olhar profundamente, ou o mais profundamente que uma borboleta pode olhar algo. Penso, então, que talvez ela possa me ver melhor do que muitos. Alguns me veriam e diriam: “que menina boba, de olhos fechados quando há tanta coisa bonita para se ver…” Minha amiga, porém, deve pensar, em sua cabeça de borboleta: “que interessante, vê tanto mesmo de olhos fechados…”

A simples idéia de uma borboleta filosófica pensando me faz rir e, inconseqüentemente, afasto minha companheira. E, creio, esta não deve ser a primeira borboleta que afasto assim.

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generation

15 Outubro, 2008

Não sei como seria o retrato da nossa geração. Pronto, falei.

O que eu sei é que somos uma geração cindida. E, muito pior do que a América da Guerra do Vietnã, não nos dividimos apenas em pacifistas e pró-guerra. Somos inúmeros, e ainda assim temos algumas coisas em comum. Nascemos em um mundo diferente. Quando nasci, o Muro de Berlin ainda era uma realidade, os telefones públicos usavam fichas e computadores realmente potentes ocupavam uma sala. O ápice do mundo dos videogames era o Atari e a seleção de futebol usava um short minúsculo que, aposto, deixa muitos ex-jogadores embaraçados.

A nossa geração não é uma geração on the road. Kerouac que me perdoe, mas prefiro o conforto da minha cama e a possibilidade de apertar um botão e receber notícias da China. Nossa geração é, sem dúvida, uma geração on the web.

O que isso significa em termos práticos, não sei. Talvez signifique que não tenhamos valores a defender. Talvez signifique que queremos defender valores, embora não saibamos muito bem quais são. Talvez signifique que uma campanha para eleição de prefeito possa ter uma contribuição efetiva de jovens que se mobilizaram e usaram os MSN e Orkut da vida para fazer uma declaração. Talvez signifique que não sabemos muito bem quem somos.

Lembro-me de uma vez ouvir um amigo dizendo que sofríamos de um mal inominável. Chegávamos aos vinte anos cursando uma universidade, com um estágio ou um emprego relativamente bom, com acesso à internet, televisão, dvd player e mais uma centena de comodidades. E ainda assim sentimos a falta de algo. Se te tranqüiliza, meu caro amigo, não acho que Kerouac soubesse mais do que nós o que buscava.

Dores de cabeça, fotos, brincadeiras, desilusões amorosas, crise da Bolsa, best sellers explodindo a torto e a direito, indecisão, crise de vocações, sonhos, certezas, esperanças…

A vida como ela é. Ou como deveria ser…

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Lembranças de uma vida escolar

7 Setembro, 2008

(nomes reais substituídos por fictícios pelo bem da literatura)

Existia alguma coisa de muito assustadora em começar o terceiro ano do Ensino Médio. Pelo menos era isso que todo mundo comentava naquela primeira semana de aula. Nossa turma – a única do colégio arrumada de acordo com um ranking de notas – era um grupo grande, de uns 45 alunos, e eu já tinha estudado com cerca de 10 deles. Vários outros eu conhecia de outras situações. A maioria me conhecia. Não sei até que ponto posso falar isso com segurança, mas a maior parte dos alunos do terceiro ano me conhecia. Eu era a nerd, a queridinha dos professores e – em parte por isso, em parte pelo meu comportamento não muito sociável – muita gente sabia quem eu era e não gostava de mim. Isso não era exatamente um problema, só mais um dado da minha vida escolar.

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